PARTE UM
(por Gi Sauressig)
Havia lágrimas em seus olhos. Porém uma quase imperceptível coragem impedia-as de cair, molhando sua face... Ela sabia que Magner estava em algum lugar daquela casa, sedento, com sua pele branca e aquela voz que a fascinava completamente. Sempre que a chamava pelo nome, um tremor, um desejo inexplicável de se entregar tomavam seu corpo e sua alma. Suas promessas de vida eterna a instigavam. Mas ela fugia. Fugia com medo, com muito medo, pois sabia que aquelas presas agudas entrariam em seu pescoço, perfurando sua carne, e seu sangue jorrando com fúria para fora do corpo, levaria com ele todos os seus sonhos.
Alice ouviu um ruído que vinha de trás das escadas. Era Magner. Era a figura de um anjo, de olhos azul turquesa, penetrante. A garota não tinha para onde correr, e mesmo se tivesse, de nada adiantaria. Já era tarde de mais. Ele se aproximava da garota de pele branca, aguçada pela cor escura de seu vestido, que parecia ter sido manchado de vinho. Seu corpo era alvo, ainda mais embelezado pelo brilho de um colar que pendia de seu pescoço, lindamente caindo entre os mais belos seios do povoado.
Magner tocou seu rosto, causando-lhe um estremecimento que percorreu todo o seu corpo, junto com a delicada e branca mão de vampiro, que descia pelo seu pescoço. Tomou-a então em seus braços, e segurando seus cabelos, cravou seus dentes na carne, sugando o doce sangue da garota, que suspirava e fechava seus olhos lentamente, se entregando àquele prazer inenarrável, seu sangue escorrendo, quente, pelo busto, contrastando com a pele branca, e fazendo o corpo da moça desfalecer nos braços do vampiro, que se banqueteava e tremia junto de sua vítima.
E assim Alice se torna uma bela vampira. Poderosa, amedrontadora, e ao mesmo tempo, fascinantemente linda e perigosa. Entre os braços de seu mestre, sentindo o cheiro forte do sangue em seu vestido, entregando-se aos prazeres antes prometidos pelo seu então criador.
PARTE DOIS (por Edson F As cortinas do teatro se fecharam com o final do último ato, a platéia foi ao delírio, aplaudindo em pé efusivamente. Aquela cena havia se tornado comum desde que a peça havia estreado. No início o público comparecia por curiosidade, em grande parte pela presença enigmática da jovem Alice, que fazia o papel principal. Logo toda a imprensa havia se voltado para a pequena garota de olhos esmeralda. No camarim, Alice limpava o sangue cênico de seu busto, quando alguém bateu na porta e pediu permissão para entrar. Permissão concedida, um repórter de meia idade entrou na pequena sala. - Henry Jonas, Correio Nacional. - Disse o homem se apresentando. - Apenas meia hora senhor Jonas. Estou exausta. - Disse a garota, retirando o aplique do cabelo. - Fascinante sua peça senhorita Alice. Você realmente sabe como cativar o público. - Acho que as pessoas gostam de historias de vampiros. - Considerou a garota. - ...Grande parte do publico vem para ver você. Muitos têm curiosidade sobre a sua vida privada. - Comentou o repórter. - Porque você nunca foi vista andando na praia, ou fazendo compras num supermercado? A garota exibiu um breve sorriso, que escondia uma ponta de melancolia indecifrável. - Não posso exibir um bronzeado senhor Jonas, atrapalharia a imagem do meu personagem. - Explicou a garota, exibindo a pele branquíssima do pescoço. - As pessoas não iriam engolir a história de um vampiro que pegou insolação. - Esta é a parte que mais me impressiona Alice. - As pessoas se prendem demais a literatura. - Bran Stocker. - Concluiu a garota. Isso. - Historias de vampiros sempre existiram nas mais variadas culturas, que vivem de sangue e que podem se transmutar em animais ou objetos. Eu só penso Alice, que de repente, se os vampiros realmente existirem, eles serão muito parecidos conosco, andarão de dia e comerão pão com alho. - Acho que o publico não está preparado para a sua abordagem Sr.Jonas, prefere mais a forma clássica... - disse Alice retirando os sapatos. Alice abaixou-se para abrir uma gaveta na escrivaninha, o repórter admirou-a. Mesmo se estivesse de tênis e sem maquiagem, pensou o repórter, ainda assim seria fascinante. - Você comentou pelo telefone que tinha uma coisa para me mostrar... - Disse a atriz. - Realmente. - Respondeu o repórter tirando um envelope da bolsa. - na sua ultima entrevista você comentou que não conhecia seu verdadeiro pai, sabia apenas que ele era um marinheiro romeno, informação passada por sua mãe. - Foi. - Afirmou a garota. - Ele teve um breve romance com a minha mãe, e voltou para sua terra natal sem saber que ela estava grávida. Estive pesquisando sobre os navios que visitaram a cidade de Recife na época em que você nasceu. Não havia nenhum navio romeno. - Entendo. - Disse Alice, sem esconder a decepção. Jonas entregou uma foto ampliada para a moça, reprodução de uma capa de jornal. Na foto um grupo de pesquisadores italianos posava ao lado de um reator. - Quem são estes homens? Perguntou a garota. - Um grupo de técnicos de uma empresa espanhola viera para o Brasil à 19 anos atrás, visitar uma usina de energia em Recife. Embora eu não possa identificar na foto, havia entre eles um pesquisador italiano e um romeno, que eu acredito poder ser seu pai. Alice observou o grupo na foto com mais atenção. Uma nova porta se abria para ela e exibia múltiplas possibilidades. - Consegui os registros da equipe e da tripulação. Estão nos documentos anexos. - Obrigada. - disse Alice, agradecida, folheando os papéis. - Espero que isto contribua para que você descubra mais sobre o seu passado. - disse o repórter. - E diminua um pouco esta tristeza em seus olhos. A garota sorriu. O repórter se despediu e foi embora. Alice pegou o aplique e o recolocou nos cabelos. Uma nova sessão começaria. Mas esta teria um tom diferente. Contatos: emodem@ig.com.br gislaine.s@gmail.com | ||||
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contos de 2020
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
SANGUE
AMARGO AMANHECER
AMARGO AMANHECER ( Edson F /
maio/2006)
Deitada sob o edredon cor de laranja, a garota dormia
tranquilamente. Sono pesado, a cabeça no canto da cama, apoiada sobre o braço,
a costas viradas em direção a janela. Seus cabelos compridos quase tocavam o chão.
Abriu os olhos num impulso, não reconheceu onde estava, o quarto era estranho,
não se lembrava do local nem como havia chegado ali. Viu suas roupas intimas
espalhadas pelo chão, só então se deu conta que estava nua.
As roupas expostas na porta
do armário e a camisa na grade da cadeira eram indícios de um quarto masculino,
recolheu o corpo semi-exposto para baixo do edredom, a dor de cabeça já havia
cessado tornando mais fácil à conexão de idéias.
Lentamente ela recordou dos
eventos passados, juntando cena a cena, primeiro estava num bar, lembrava das luzes de neon da
junkie box, em seguida um rapaz lhe pagou uma bebida, em certo momento
encontrou uma amiga dos tempos de colégio., as duas conversaram, felizes. Houve
um momento em que pensou ter esquecido
as chaves de casa, e um outro onde sentiu náuseas e estava prestes a vomitar.
De repente, o fogo tomou seu corpo.
Em outro momento estava nua,
na cama com um rapaz ao seu lado, tocando seu corpo. Envolta em abraços, seu
sangue fervia, e ela se refrescava com vinho doce. Como se sentisse a presença
da lua, como se nascesse e morresse.
A garota tocou o rosto,
procurou as sensações ainda grudadas a pele, buscava um pouco do sabor do vinho
que escorrera por seu pescoço. Reconheceu seu perfume, e o toque dos tecidos
lhe era familiar. Uma relação intensa havia se consumado naquela cama, e ela
fez parte dele, embora parecesse ter acontecido com outra pessoa.
Mas agora ela estava de novo
em seu corpo e o devaneio dissipou-se no ar. Desorientada vestiu sua roupa.
A garota saiu do quarto,
conferiu o cabelo no espelho do corredor. Na entrada da sala estava um homem,
sentado no sofá.
-
Preciso ir embora. – Disse ela.
-
Levo você no meu carro. – disse ele pegando as chaves na mesa de
centro.
-
Acho melhor não. A gente se vê. – Respondeu ela, apressada.
-
Carol, por favor. Deixe que eu te leve. – Insistiu ele.
A garota recolheu a bolsa
que estava em cima da estante ao lado de livros de Pablo Neruda. Sem olhar o
rapaz dirigiu-se a porta.
-
Gostaria muito que você ficasse. – Disse o rapaz em voz baixa.
-
Não posso. Disse a garota. A cabeça baixa escondia o olhar por baixo
dos cabelos.
-
Eu pensei que ontem... – disse ele hesitante.- Tinha acontecido algo
especial.
-
Por mais interessante que tenha sido. – respondeu ela. – Tenho que ir
embora. Não existe nada entre nós.
O rapaz ficou em silêncio,
não havia mais nada a ser dito.
- Escute Diego, Não leve a
mal. Mas você vai encontrar a pessoa certa. A gente se vê.
Foram as ultimas palavras da
garota antes de sair.
E o rapaz ficou sozinho no
quarto.
O vazio tomou conta do
ambiente, Diego ficou observando, um curativo em seu braço. A faixa apresentava
uma pequena mancha de sangue.
-
Entre. Eu sei que você esta me esperando.
Um outro rapaz vestido de
branco entrou na sala, saído da escuridão,
sentou ao lado do rapaz de alma torturada. E ai foi divertido? – perguntou ele.
-
Não aconteceu como deveria. – respondeu Diego.
-
Oras, mas ela estava aqui. Vocês transaram a noite toda. Um corpo só.
Ela tocou as estrelas e essas coisas todas...
-
Você me enganou. Éfreihn. – Como todo demônio, você me enganou.
O demônio fez esforço para
compreender, havia cumprido o trato passo a passo.
-
Lhe dei tudo que você me pediu.- respondeu o demônio, fitando o rapaz
nos olhos.
-
Me enganou. E ainda assim provou meu sangue.
O demônio deu a volta na
sala, apreciou o sol pela janela da sala. tocou a ponta de uma das flores secas
do vaso e está se regenerou. Não entendia como alguém podia ficar trancado em
casa com um dia tão bonito lá fora.
-
Até os demônios tem suas leis. Você sabe que eu não posso tocar nos
humanos sem permissão.
-
Éfreihn. Você já sabia que isso ia acontecer. Ela foi embora. Não
adiantou nada.- Disse o rapaz.
O demônio mostrou-se
levemente decepcionado.
Vocês dormiram juntos, não
era isso que você queria?
-
Não Éfreihn, você não entendeu. Eu queria que ela me amasse.
O demônio baixou a cabeça,
meditou por alguns momentos. Por um instante cessou o vento dentro da sala.
-
Amor. – Sorriu Éfreihn - Você está confundindo as coisas Diego, se
queria amor, pediu ajuda para a entidade errada.
O vento voltou a circular. O
demônio saiu da frente dos raios de sol e desapareceu na escuridão.
Fim
( Edson F / maio/2006)
O ULTIMO BEIJO
Era chegada
a ultima semana do outono, um vento frio murmurava uma antiga canção entre as
folhas das arvores. As noites chegavam mais cedo, com a escuridão, os
camponeses daquele pequeno vilarejo evitavam andar sozinhos ao final da tarde.
Haviam
vários rumores e superstições que rondavam aquelas pessoas, quanto mais
especulavam sobre fatos supostamente ocorridos, mais se distanciavam da
realidade.
Quando os
corpos de dois camponeses foram encontrados degolados no meio de uma plantação,
e o sangue misturou-se a terra junto das sementes, a inquietude se instaurou, e
logo foi encontrado um responsável que explicasse de forma racional o motivo
daquele crime. Alguém que tivesse a
própria existência envolvida em mistério.
Para muitos
a principal suspeita era uma jovem mulher
que morava solitária na casa próxima ao rio, que venerava o sol e conversava
com as plantas. Era um detentora de saberes proibidos. Por muitos chamada de
bruxa.
Esta moça
misteriosa tinha um problema mais urgente para resolver naquela noite. Matar a
própria fome.
A água no caldeirão refletia turva o rosto de
traços delicados de Cris, a garota
emergiu um a um os vegetais, molhando a ponta dos dedos. O fogo pôr momentos
parecia atraído pôr sua pele. Cantava uma melodia ainda mais antiga que a
canção do vento.
Cris
estava cansada, havia trabalhado o dia inteiro. Aquela seria a sua primeira
refeição do dia. Tampou o caldeirão com
cuidado. Seus movimentos eram acompanhados minuciosamente pôr um gato que
estava em cima da mesa.
Devo ter alguma receita que combina com gato em algum
lugar. Disse ela brincando.
Houve um
movimento forçando a abertura da porta. O barulho assustou o felino, que deu um salto e subiu as escadas
de madeira que davam para o dormitório na parte superior da casa.
Um homem
alto adentrou a sala, vestia uma capa de pele característica de um caçador.
Trazia consigo um coelho selvagem abatido, o animal foi posto sobre a mesa.
-
Pensei que você não viesse mais. – Disse a garota.
-
Sempre cumpro minhas promessas. – disse o homem
sentando-se. – O povo la fora parece agitado, é estranho não terem entrado
aqui.
-
Eles tem medo de mim. - Justificou Cris. – Temem o que
não conhecem.
Você guardou minhas coisas? – Perguntou o
homem.
-
estão bem escondidas...- Respondeu a moça.
A garota
subia as escadas e foi até o quarto, momentos depois retornou com uma mochila
feita de pele de carneiro em uma das mãos, e uma espada na outra apoiada no
ombro. O homem pegou as coisas com
cuidado.
Cris
aproximou-se, o homem segurou em suas cintura, a garota tocou-lhe o rosto, o
longo cabelo do homem encobria uma cicatriz. “lembrança de guerra” disse ele
anteriormente. Ela inclinou-se e os dois se beijaram.
O gato
observava a movimentação de longe, de olho na carne do coelho exposta.
Ao final do
beijo, ainda com os lábios úmidos, o homem apertou uma das fivelas do vestido da garota, na
altura do ombro.
-
Não fica bem para uma garota sair a noite por ai assim.
Cris sorriu.
Por um momento não parecia correr risco de morte.
-
Será que conseguiremos ir embora sem problemas? –
Perguntou ela.
-
Se alguém tentar intervir, terá que prestar contas ao
aço da minha espada.- Disse ele, exibindo a arma, o artefato era pesado e largo, trazia escritas
estrangeiras marcadas a fogo em sua bainha, seu metal polido reluzia à luz de
velas.
Como
conseguiu está espada?
-
Tomei de um viajante, disse ele. Mas foi numa disputa
limpa. – Justificou ele sorrindo.
-
Os camponeses não viram você chegar aqui?
-
Sou uma pessoa furtiva Cris. Um ladrão
profissional. Sou uma criatura das sombras.
Ninguém pode perceber minha presença a
não ser se eu queira...
-
Os homem sempre são mais confiantes quando estão com
uma espada na mão...- disse ela. O rapaz sorriu guardando novamente a espada na
bainha. Por um momento sentiu-se tonto e apoiou-se na mesa.
-
Você sabe o que dizem por ai Aijin? É assim que você se
chama não?
O rapaz
mostrou-se surpreso. Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome. Sentiu
suas veias repuxarem, espalmando a mão sobre a mesa.
Dizem que
sou um bruxa, que fiz um pacto com o mal...que posso jogar pragas sobre as
pessoas...
- você
acredita mesmo que alguém pode voar ou invocar dragões?- Perguntou ela. –
Talvez uma bruxa esteja mais interessada em obter conhecimento, e que possa
traduzir escrituras antigas, ou estrangeiras, como a da sua espada...
O homem
estirou o braço tentando agarra-la . A garota deu um passo para trás, fitando-o
nos olhos. O sabor do veneno subiu-lhe a garganta.
-
Os moradores desta vila são ingênuos, como eles podem
achar que uma garota pequena como eu teria forças para sobrepujar dois
camponeses empunhando enxadas? Talvez eles não entendam que eu sou apenas uma
amante da quiromancia, e que fabrico
medicamentos, e não poções diabólicas... Teria que ser alguém forte, alguém
com treinamento militar não é verdade Aijin?
A visão do homem escureceu, ele curvou as
pernas num ultimo esforço, caindo no
chão lentamente , com a cara no assoalho.
-
as pessoas estão tão preocupadas com a magia negra, que
não percebem que os dois irmãos mortos eram donos de terras produtivas, e que
agora, a pessoa mais beneficiada, será o homem que se casar o a irmã mais nova
deles...
Calculo que
você deve ter investido seus olhares sedutores para a garota, não Aijin?
O homem nada
respondeu. Já estava morto, antes do final da ultima frase.
A
garota foi embora do vilarejo com os
primeiros raios de sol. Ninguém interviu.
Aijin,
havia prometido entregar seu corpo para os camponeses. Virando o herói local,
seria fácil desposar quem ele quisesse. Mas sua morte mudou tudo, ninguém
estava disposto a enfrentar a bruxa que
venceu o guerreiro.
Fim (Edson
F. emodem@ig.com.br. julho de 2006.
Depois da Tempestade
Sentado próximo a lareira, Henrique buscava conforto
na madeira que queimava lentamente, mas o calor parecia não alcançar sua pele,
era como estar morto. Nos sonhos, quando se toma uma taça de vinho, esta não
tem nenhum sabor. Porque será então que os beijos são tão calorosos? Você pode
acordar no outro dia e relembrar da
sensação do toque. E está sensação pode ser tão intensa que ira lhe perseguir o
dia todo. O beijo de Aline ainda estava em sua mente, e se fazia presente a
cada segundo. Exatamente igual ao dos sonhos.
Henrique tentou alcançar a garrafa de vinho ao seu
lado, esbarrou a mão na taça que rolou pelo carpete, percebeu então que estava
bêbado e era a hora de parar.
Do lado de fora a tempestade dava sinais de que iria
ceder, perdera sua força, e seu grito dava lugar ao murmúrio do vento.
Alex entrou na sala correndo, suas roupas estavam
encharcadas, parou ofegante próximo a Henrique, trazia em sua face um tormento
indescritível.
-
Deu tudo errado Henrique ! Tudo errado!
Henrique
pediu a Alex que se acalmasse. Mas ele ameaçou sair correndo.
- Você
precisa ir comigo até o lago , agora!
-
Acalme-se , e me diga o que aconteceu.
O rapaz,
perturbado, sentou-se por alguns instantes em outra poltrona. Mas logo estava
em pé novamente dando voltas pela sala.
-
Isso não pode estar acontecendo... – Disse ele
esfregando a própria nuca.
-
Respire fundo e me conte desde do inicio. – Pediu
Henrique, flertando com a garrafa de vinho.
-
Aline está morta Henrique ! Morta! – Você entende o que
isso quer dizer? – Gritou o rapaz segurando o amigo pelos colarinhos. – Parecia
tudo perfeito, estávamos os dois no barco, já havíamos conversado sobre um
monte de coisas...
-
Continue... – Pediu Henrique , alcançando a taça de
vinho.
-
A gente teve uma discussão. O barco acabou virando...
Eu tentei socorre- lá , eu juro!
Henrique
encheu novamente a taça, apreciou a garrafa por alguns instantes. Aquela era a
ultima, pensou. Ao seu lado sentado na poltrona próxima a janela, Alex chorava
convulsivamente.
-
O que vai ser de mim o que nós vamos dizer quando
voltarmos?- Perguntou Alex, com as palavras cheia de dor.
-
Sobre o que vocês discutiram? – Quis saber o outro.
-
Eu pensei que estava bem entre nós, que nós iríamos
ficar juntos. Mas Aline estava mudada. Disse que não tinha mais certeza. Eu
tentei beija-la...
-
Ela se negou e você tentou agarra-la a força. -
Completou Henrique.
-
Foi. Nós perdemos o equilíbrio e o barco virou.
-
Onde esta Aline agora? - Perguntou Henrique.
-
Na areia. – Revelou Alex. – Você precisa ir vê-la.
Henrique
concordou, os dois saíram da cabana. A
chuva já havia parado. Apenas um leve chuvisco caia naqueles rapazes.
Alex
corria desorientado. Henrique o seguia com a garrafa de vinho.
-
Onde está o Suzuki ? – Perguntou Alex.
-
Atolado. – Respondeu Henrique apontando. - Nós deixamos o carro em um local que inundou.
Os dois chegaram a beira do lago. Henrique tomou o último gole de vinho e jogou
a garrafa longe. Alex andou de um lado para o outro. Procurou , mas não
encontrou:
- Eu deixei ela aqui. Tenho certeza.
-
Eu sei. – Disse Henrique.
-
O que será que aconteceu com o corpo dela?
Henrique
caminhou até a árvore onde os dois haviam montado a barraca, tinham a idéia de
passar as noites próximo ao lago. Simulariam um “luau”. Com a chegada da
tempestade tiveram que desistir e ficar na cabana. Ainda havia um resto de
fogueira e flores que Aline havia colhido para enfeitar o acampamento.
-
Aline esta aqui.
Apontou Henrique pára a um saco de dormir .
-
Como, se eu a deixei na beira do lago a poucos
momentos?
Henrique abriu
o saco de dormir , o corpo de Aline descansava sem vida. Era como se estivesse
adormecida. Mas já estava morta a dias.
- Eu a
trouxe pra cá. – Revelou Henrique. – Coloquei alguns cubos de gelo para
preservar o corpo, acho que deu algum resultado.
-
Mas como, não houve tempo! – Protestou Alex. –
repetindo o gesto de esfregar a cabeça.
-
Na verdade houve tempo de sobra. – contou Henrique -
Alex, o acidente que você me conto aconteceu a uma semana. Você
realmente tentou salvar Aline, mas já era tarde de mais. Decidimos coloca-la no
saco de dormir. Teríamos ido embora se não fosse a tempestade. Você não lembra
? Nós tentamos desatolar o Suziki da lama.
Henrique
fechou novamente o saco de dormir. Lembrou por um instante o beijo de Aline. E
que sua voz ficava rouca nos dias frios. Ao seu lado Alex apenas observava.
-
O que aconteceu depois ? perguntou.
-
Você se desesperou. Machucou o braço em nossa tentativa
de colocar o carro na estrada. Então você foi embora. Fugiu. Disse que não
agüentaria ficar aqui com Aline morta.
-
Mas o que aconteceu comigo? Porque eu não me lembro ?
-
Essa é a parte pior Alex. A chuva aumentou quando você
foi embora. Eu não entendi quando você retornou no dia seguinte desesperado
dizendo que Aline precisava de ajuda. Eu acompanhei você até a praia e você
desapareceu.
-
Não entendo. – Disse Alex com a voz miúda.
-
No outra dia fui até a estrada pedir ajuda , uma parte
do asfalto havia deslizado. Foi lá que eu encontrei seu corpo.
-
Meu corpo?
-
Isso mesmo. Você morreu um dia depois de Aline. Mas por
alguma razão não consegue se lembrar.
Esta já é a quinta vez que você volta
para a cabana. Quando descobri que estava morto fiquei aterrorizado. Naquela
noite você retornou. .Me tranquei no quarto enquanto ouvia seus gritando na
sala. Achei que havia voltado para me atormentar.
Henrique
Lamentou não ter trazido mais uma garrafa de vinho. Alex não parecia mais
desesperado e relembrava aos poucos os fatos ocorridos depois do acidente do
barco, enquanto Henrique continuava a explicar:
-
Então você volto de novo e de novo. Na terceira vez
fiquei te observando pela porta. E ontem decidi conversar. Presumi que a única
forma de fazer com que entendesse fosse
trazendo-o aqui.
-
Onde está meu corpo agora ? – Perguntou Alex se
tocando.
-
Enrolado em uma lona perto da estrada. Não consegui
traze-lo.
Alex parecia conformado. Talvez não houvesse mais
lugar para ele no mundo sem Aline. Quem sabe se sobrevivesse, acabaria se
matando.
A sensação da
lama fria cobrindo seu corpo, a asfixia e finalmente a paz. “Realmente estou
morto”, pensou ele.
Henrique observou Alex por um momento, tinha o
desejo quase cientifico de vê-lo desaparecer.
-
O que será de mim agora?- Pergunto Alex. – Será que esquecerei de tudo,
e retornarei dia após dias para assombrar a casa?
-
Sinceramente não sei. – disse Henrique. - Não estarei
aqui para saber. A chuva já parou e amanhã a lama estará seca o bastante para
que eu coloque o Suzuki na estrada.
Não existem palavras para
consolar um morto. Pensou Henrique, lhe ocorreu que um dia poderia também
receber uma visita de Aline.
Alex foi embora sem se
despedir, andou em direção ao lago e desapareceu na escuridão.
Fim
Escrito por Edson F. em
março de 2004 .( contato: emodem@ig.com.br).
APRECIE O SILENCIO
Perdido
entre as árvores do jardim, um rapaz caminhava desorientado entre as flores,
não fazia mais noção de quanto tempo estava ali. Apenas corria de um lado para
o outro, tentando-lo encontrar algo familiar. Entre as arvores havia algumas
construções, adornos e pequenos muros que separavam um verdejante gramado.
Alguns cercados serviam de suportes para arranjos de flores e trepadeiras que
se misturavam e confundiam-se com o ambiente. Lembrava um imenso clube de
campo, de tão vazio poderia até ser um cemitério, embora não houvesse nenhuma
indicação de que haviam pessoas enterradas por lá. “O que eu estou fazendo
aqui?” pensou o rapaz. Sua ultima lembrança era de estar praticando escalada
próximo de uma cachoeira. Lembrava de estar a poucos metros do chão, quando
pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, mas não se lembrava
da queda. “estou morto” foi seu segundo pensamento.
Mas não se
sentia morto, ao contrário sentia-se bem vivo, podia ouvir seu coração pulsar
acelerado, sentia o calor dos raios de sol que atravessava a copa das árvores.
Seu hálito tinha o sabor da barra de cereal que comera horas antes, e seu corpo
ainda vibrava quando fragmentos da lembrança de uma garota vinham a sua mente.
“Não posso estar morto”, pensou ele. – O sentimento
de amor que sentia por Vanessa transbordava seu ser, era seu elo com mundo e o
impulsionava a viver. “quando a gente morre o amor acaba” pensou ele. Ninguém
iria passar o resto da eternidade amando tanto alguém, concluiu. Seria cruel
demais.
O barulho de água e a umidade do ar indicavam um
pequeno rio por perto. Após um tempo de caminhada o rapaz chegou a um
descampado de onde ele acreditava estar a água. De um pequeno morro viu a
imagem de uma garota próxima do leito do rio. A primeira vista pensou tratar-se
de Vanessa, mas o que ela estaria fazendo dentro de seu sonho idílico?
Aproximou-se cautelosamente. Mais próxima, a garota
de costas já não se assemelhava a Vanessa, seus cabelos elas mais claros e
refletiam o brilho do sol, acompanhando o reflexo na água. Parecia ser mais
jovem e estava descalça. Olhava perdidamente para o horizonte e parecia
apreciar o silêncio.
O rapaz ficou parado por um momento a alguns passos
da garota. Procurava palavras para abordá-la. O simples “oi” poderia assustá-la
naquele local tão deserto, e se ela saísse correndo, com ela iriam as respostas
sobre o que ele fazia ali. Criou coragem, engoliu seco e iria dizer algo, mas a
garota virou-se primeiro, percebendo sua presença. Abriu um sorriso e saudou
sua chegada.
- Está se sentindo perdido não é? Perguntou ela.
- Bastante, respondeu o rapaz. – onde nós estamos?
Perguntou ele.
- Não sei... -
respondeu ela. - Dentro do meu sonho, talvez.
O rapaz não se sentia personagem de sonho. Tinha vida
própria, seu amor era verdadeiro, pensou ele. Um intruso talvez, mas não havia
sido imaginado pela garota.
- Ou talvez eu esteja sonhando e você faça parte do
meu sonho. – Disse ele.
-Isso também pode ser. Brincou a garota. - Explicaria
muita coisa.
O rapaz caminhou até a borda do rio. Olhou seu
reflexo na água, ao seu lado havia uma pedra, e nela havia algo escrito.
- Jéssica.
– Adiantou a garota. – é o meu nome. A única coisa que sei. Fui eu quem escreveu
ele ai...
- Você não
se lembra de mais nada? – Perguntou ele.
- Não. –
disse ela sem forçar muito a memória.
- Seus
pais, onde você mora, sua cor favorita... – tentou ele.
- Acho que
tenho mãe. – Disse Jessica. - Mas não me lembro do rosto dela. De qualquer
forma, a sensação de que ela existe me parece mais importante. E eu sinto que
ela esta aqui comigo.
O rapaz
pensou por alguns instantes, tentou refazer seus passos.
- Deixa
ver. - Disse ele, - Lembro de descer do ônibus. Lembro de ter visto algumas
garotas andando de bicicleta, comprei um mapa com um guia turístico...
- Nossa. -
Exclamou ela. – Tudo isso aqui?
- Não. –
respondeu ele. – Em um lugar parecido, mas não aqui. A vegetação era diferente
e havia uma cachoeira próxima de onde eu caí.
- o que é
uma cachoeira? – perguntou ela, O rapaz sorriu imaginando a gravidade do tombo
que a garota devia ter levado.
- É uma
extensão do rio, mas a água desce na vertical. – explicou ele.
- Tem algo
assim aqui próximo. – Lembrou-se Jessica.
Os dois
combinaram de ir juntos a cachoeira. No caminho o rapaz revelou seu nome,
Raphael. Contou algo sobre seu relacionamento com Wanessa. Sobre como as horas
se arrastavam quando eles não estavam juntos, e sobre sua mania de concertar
objetos.
Subindo por uma trilha que se distanciava do
rio, podia-se ver o alto da colina, e ouvir o barulho da água caindo, só então
Raphael se deu conta de que outras pessoas também haviam passado por lá.
- você já
se encontrou com outras pessoas por aqui? - perguntou ele a Jessica.
- Claro. –
respondeu Jessica. – mas você é o primeiro a me contar sobre detalhes da sua
vida. O resto das pessoas que eu encontrei estavam desmemoriadas como eu.
- E o que
aconteceu com eles? – perguntou o rapaz.
Não sei,
depois de certo tempo eles desapareciam entre as arvores e não mais voltavam.
Chegaram
próximo a cachoeira. Raphael olhou a sua volta. Alguns pássaros afugentaram-se
com a presença dos dois, mostrou-se intrigado, não era a mesma cachoeira onde
havia sofrido o acidente, mas parecia terrivelmente semelhante.
- Este
lugar... – disse ele. - É familiar. O cheiro, parece que eu já estive aqui a
muito tempo atrás.
Jéssica
contemplou a cachoeira por alguns momentos, alguns pingos d água atingiram seu
cabelo.
- Você faz
alguma idéia de onde estamos? – perguntou ela.
- Não sei
Jessica. – não consigo imaginar porque viemos para cá, nem porque você não
recorda de momentos antes de chegar aqui.
Jessica
olhou para o alto, tentou enxergar de onde vinha a água. Ao lado da cachoeira
um paredão de pedras se estendia formando um grande muro.
- o Maximo
que andei foi até aqui. – disse ela. – Mas você pode passar para o outro
lado...
Raphael
examinou as pedras e alguns galhos no barranco. Podia vencer aquele obstáculo.
Só tinha duvidas sobre o que encontraria do outro lado. Mas mesmo que
escalasse, não havia forma de levar Jessica com ele.
- Você vai
ter que me esperar aqui. – disse o rapaz com pesar.
- Sinto que
você não ira voltar. – como as outras pessoas.
- Mas eu
sinto que em breve a gente vai se ver. – Disse Raphael, encerrando com um
sorriso.
Raphael
apoiou-se em uma saliência na pedra, em um impulso já estava a dois metros do
chão. Embaixo Jessica observava apreensiva. Uma queda daquela altura e ele
quebraria o pescoço, pensou ele. “Vanessa iria ficar muito brava comigo”. Era o mesmo pensamento que havia passado pela
cabeça de Raphael.
Raphael
pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, veio a queda e com
ela escuridão.
Ao invés de
sentir o impacto, sentiu uma sensação de conforto, mas este foi interrompido
por um solavanco. As mãos estavam dormentes e o corpo dolorido. O rapaz acordou
em um carro, deitado no banco de trás.
- Minha
cabeça ta doendo... – disse ele. Do banco do motorista, ouviu uma voz e mulher.
- Você
levou um tombo daqueles. – Disse a mulher que dirigia a picape. – Mas eu vou te
levar para um hospital. Acho que você ficou desacordado por certo tempo.
Raphael
pensou reconhecer o tom da voz. Levantou a cabeça com dificuldade, enxergou uma
bolsa com pertences femininos no banco da frente. A mulher que dirigia o carro
tinha os cabelos claros lisos e compridos, iguais ao da garota encontrada na
borda do lago.
- Obrigado
por me socorrer. – disse Raphael, com a mão na cabeça, ainda enjoado pelo
tombo.
- Na
verdade não fui eu. – disse a mulher sorrindo. - Foram alguns rapazes que
estava fazendo trilha próximo à cachoeira. Eu não poderia te ajudar. Ainda mais
nestas condições, disse ela mostrando a barriga saliente. – Estou grávida. -
Completou ela.
- Tive um
sonho muito estranho. – comentou Raphael. – Encontrei uma garota chamada
Jessica, na beira de um rio, e no sonho também sofri uma queda...
-
Interessante. – comentou a mulher, observando o semáforo na entrada da avenida
que dava para o hospital. – Estava pensando neste nome para a minha filha que
está pra nascer.
A mulher
parou a picape na área de emergência do hospital. Dois enfermeiros aproximaram
com uma maca.
- Você iria
gostar de conhecer meu marido, ele também gosta de esportes radicais. –Disse
ela. – Quem sabe você me visita, quando o bebê nascer...
Raphael fez
um sinal de Ok com o polegar, fechou os olhos e adormeceu novamente.
Fim.
Historia escrita por Edson F. em
agosto de 2008.
Contatos: emodem@ig.com.br
Religado
A garota de
cabelos preto azulados desceu a escada lentamente, trazia em suas mãos os
registros técnicos projeto a ser desenvolvido naquela semana. No décimo quarto
andar do Instituto Bio Humano, ficavam os laboratórios de regeneração.
Próximo ao tanque de contensão,
estava Dorian, o supervisor Substituto, que aguardava os registros, enquanto
conferia os dados coletados da ultima analise no computador de processo.
Dorian recebeu
a pasta com os registros e agradeceu a Anelise sem muito empenho, quando pensou
em ser mais incisivo a garota já estava longe. Havia subido a pequena escada
metálica para chegar aos medidores nos tubos de alimentação.
- O neuro compositor já está ativo,
Dorian. Pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. –
Disse a garota.
Dorian sorriu
pela brincadeira, mas estava nervoso, a ultima tentativa de regeneração havia
falhado em seus momentos finais. Era questão de tempo para que a direção do
laboratório questionasse sua capacidade de coordenar projetos de regeneração.
- Comece a essa droga logo de uma
vez! – gritou Anelise, abrindo os registros que controlavam a alimentação dos
tubos. O grito assustou Gustavo, o técnico de processos que auxiliava Dorian. O
supervisor substituto teclou um código no computador e por um instante a sala
começou a estremecer. Os nutrientes coloridos passaram a preencher os tubos em
direção ao tanque de regeneração.
- Ligue o canhão foto-cromático,
você os opera melhor do que eu. Disse Dorian para o amigo. Gustavo conferiu os parâmetros
em uma tela vertical secundaria e ativou os projetores de luz.
Um
aviso luminoso surgiu na tela de Dorian, Carga de regeneração em 73%. Lentamente
as cadeias de proteínas começaram a formar um grupo de tecidos, numa orientação
segmentada em meio ao borbulhar do líquido verde e espesso que preenchia o
tanque.
Dorian exibiu um sorriso de
satisfação quando viu a silhueta de um corpo humano começar a formar-se no
tanque, mas a estrutura se desfez levando consigo o sorriso de Dorian.
Os
tubos de alimentação foram fechados automaticamente pelo sistema de segurança,
e um alerta de estado crítico irreversível surgiu na tela do computador de
processo.
***
Dorian subiu
para o refeitório, sentou-se ao lado de Anelise que almoçava, mas não tirava os
olhos de seu Multipad, os cabelos pretos azulados longos encobriam uma parte de
seu rosto. Dorian pensou que talvez por alguma razão, os dois poderiam ser mais
próximos, só faltava encontrar um bom argumento para dizer a ela.
- Mais um projeto inconcluído.
Lamentou o rapaz.
- Você fez o procedimento
correto. Ponderou Anelise, sorvendo mais um gole de suco concentrado. - ...Garantiu
a integridade da máquina, você não vai conseguir uma promoção para supervisor
geral se causar algum dano aos sistemas de refrigeração. Foi um processo cem
por cento seguro.
- Anelise voltou a olhar para a
base de dados, fez um movimento rápido com os olhos e o Multipad trocou a
página.
- talvez seja isso... – Pensou
alto Dorian. – Talvez eu esteja cauteloso demais.
O rapaz saiu
do refeitório pensando na pilha de relatórios que precisava preencher. O
gerador do canhão foto cromático ainda lhe garantia mais um bombardeio para
aquele dia, desde que Gustavo revesse os protocolos de segurança. Dorian dobrou
o corredor e foi até a sala do amigo.
Quando chegou, o técnico já
estava juntando as coisas para ir embora. Dorian entrou na sala sem bater.
Gustavo sentiu que daquela atitude não vinha coisa boa.
- Quero que você reveja os
processos de segurança.
- Por mim tudo bem - Respondeu Gustavo.
– Farei isso na próxima segunda.
- você não esta pensando em ativar
o mesmo projeto de novo não é?
- Claro que não... – Mas preciso
saber se seria possível.
Gustavo e
Dorian voltaram ao laboratório, o técnico foi até seu computador e rodou um diagnóstico
acelerado do último processo. Dorian preferiu não informar Anelise que havia
retornando ao laboratório, ela certamente desaprovaria.
Dorian
conferia o nível dos reservatórios de fluido, quando um dos funcionários da administração
entrou no laboratório acompanhado de um militar fardado. Por um instante, Gustavo,
o operador do canhão foto cromático achou que os dois seriam presos.
- Esse é o comandante Aziz, veio
inspecionar o nosso projeto, disse o funcionário, apresentando o homem.
- Muito prazer senhor Dorian, vim
verificar como está o nosso homem. Ele era um membro importante no meu
regimento, e preciso assegurar que o seu retorno seja bem sucedido.
- Estamos fazendo os ajustes
necessários, mas temos bons prognósticos., senhor comandante.
- você é o supervisor substituto
certo?
- Sim. A doutora Carletti é a
nossa diretora de desenvolvimento, e responsável pelos projetos.
- Entenda senhor Dorian, a
corregedoria do exército está me pressionando por resultados, preciso retornar
com algo palpável em mãos. O
financiamento do seu laboratório depende disso...
- Entendo... – respondeu Dorian
engolindo seco.
- Quando vocês farão o próximo
teste? – perguntou ele.
- Estamos terminando os
preparativos agora senhor Aziz. O Senhor pode ficar para acompanhar o processo.
Disse Anelise, entrando no laboratório.
O sargento, expressou
um ar de satisfação diante da presença da linda garota.
Gustavo levou a mão à cabeça
preocupado. Sentiu seu emprego em risco, e percebeu estar numa grande
enrascada. Dorian gaguejou algo e puxou o amigo para o fundo do laboratório,
aproveitando que o militar estava distraído com a presença de Anelise.
- Cara, vai ser muito feio se o
sargento presenciar o nosso fracasso... – Advertiu Gustavo.
- Meu futuro aqui no laboratório
depende disso... eu só preciso que você acene com a cabeça... – Suplicou
Dorian.
Gustavo consentiu com um gesto e
Dorian agradeceu com um olhar pelo voto de confiança de Anelise, que
apresentava as instalações para o militar.
***
Anelise subiu
novamente as escadas metálicas para checar os medidores.
- O neuro compositor já está
ativo Dorian, pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa
vez. – disse ela em voz alta.
O
sargento ficou em duvida se aquilo era uma piada interna, por precaução, deu
dois passos para trás.
Dorian
teclou o código de execução no computador e novamente a sala começou a tremer.
O oficial deu mais dois passos para trás por segurança e observou o tanque de
contensão borbulhar. Dentro, a silhueta de um corpo disforme bailava lentamente
ancorada pelas conexões e tubos de nutrição.
Um
aviso luminoso surgiu na tela do computador de processos: “Carga de regeneração
em 73%”.
Por
um instante o supervisor substituto teve a visão de um Dorian desempregado,
arrasado e entregue a bebida.
- Vamos alterar para 85% - gritou ele.
-
Estaremos 10% acima da margem de segurança, advertiu Gustavo.
-
Relaxe, tranqüilizou Dorian. - Estamos utilizando o protocolo mínimo.
Aziz
ficou impressionado com a determinação da equipe, aproximou-se do tanque de
contenção e viu o corpo de seu soldado boiando no liquido verde.
A mensagem de projeto concluído
surgiu na tela do computador central.
Anelise
cruzou a sala e foi ao encontro de Dorian. Foi a primeira vez que os dois se
abraçaram.
***
O comandante
Aziz voltou para o quartel muito satisfeito com o sucesso do processo de
regeneração. Gustavo retornou para o laboratório mais cedo na outra semana,
para checar se o excesso de esforço não havia avariado a estrutura da máquina.
Uma semana
após a regeneração, o soldado já se recuperava no ambulatório, Dorian, Anelise
e Gustavo foram chamados, assim que ele voltou à consciência.
Os três se
sentaram a sua volta, dentro do quarto, enquanto o soldado dormia. Acordaria
assim que o efeito de sua medicação passasse.
- Minha cabeça
está doendo. – Disse o soldado, passando a mão na cabeça e notando os eletrodos
grudados em sua testa com esparadrapos.
Dorian levou
um susto, pois estava olhando pela janela no momento que o rapaz acordou.
- Quem são
vocês? – perguntou ele.
- Somos
técnicos do laboratório de regeneração. – Disse Dorian se Apresentando. Eu sou
Dorian, essa é a minha assistente Anelise, e aquele ao fundo é meu técnico de
processos, Gustavo. O soldado olhou os
dois por alguns segundos, até entender que estava num hospital.
- Preciso
voltar pro quartel, hoje é dia do meu turno... – completou o soldado, meio
confuso.
- É melhor
você descansar até se recuperar. - Disse Dorian, ajeitando o travesseiro do
homem. – Nós estamos em um ambulatório e você ainda precisa fazer alguns
exames.
- Cara, estou
sentindo uma dor no peito. – Disse o soldado, simulando dificuldades para
respirar. Anelise tomou a frente de Dorian para lhe explicar.
- Você sofreu
um ferimento grave, tivemos de reconstruir uma parte da sua mandíbula e pescoço.
A atenção de
todos se voltou para a porta do quarto que se abriu, era o comandante Aziz
entrando. Ao ver o comando o soldado na cama bateu continência.
- Descansar, soldado.
– Respondeu o comandante. – vejo que você está se recuperando bem, eu nunca
tinha conversado com uma pessoa regenerada antes.
- O que
aconteceu comigo, por que eu estou aqui? – perguntou o paciente.
- Você lembra
do rigor e do estresse de servir a sua pátria meu jovem, algo que você tentou
compensar com medicamentos. Houve uma discussão entre você e outros dois
soldados do seu regimento, você acabou dando um tiro de fuzil nos dois. Estão
mortos agora.
- Eu matei
dois soldados? – Perguntou o homem na cama, o comandante Aziz apenas acenou com
a cabeça.
- E quem
causou o ferimento no meu pescoço?
Perguntou o rapaz, confuso.
- Você mesmo.
Cometeu suicídio dias antes do seu julgamento. - Respondeu Aziz. – Assim que
você se recuperar, o levaremos de volta a corregedoria, uma nova audiência foi marcada,
e você precisa estar vivo para ouvir a sentença.
A chefe da
enfermaria entrou na sala naquele momento, e pediu que todos se retirassem.
- Vocês
precisam sair agora, o paciente precisa receber medicação suplementar.
Dorian e seus
amigos saíram, no corredor, o comandante Aziz chamou a atenção de Dorian.
- Fizeram um
ótimo trabalho. Vocês contribuíram com um assunto de ordem nacional. – Disse
ele. – Terão minhas recomendações.
- Obrigado
senhor. – Limitou-se a agradecer Dorian, ainda perplexo com o assunto.
Os Três foram
se embora, na entrada do quarto, dois soldados ficaram de vigia, para o caso de
algum imprevisto acontecer com o paciente.
***
Quatro semanas
após o procedimento ser concluído com êxito, a Doutora Carletti assumiu a
direção geral do Laboratório de regeneração.
Dorian então foi promovido para Supervisor pleno, e ganhou sua própria
sala. Graças em partes a intervenção do comandante Aziz, e as recomendações da
corregedoria do Exército.
No dia de
assumir seu novo cargo, aguardou ansiosa a presença de Anelise, com quem
dividiria seu mais novo projeto. Dorian ficou sentado no refeitório revisando
seus dados no multipad, quando a garota chegou.
- Parabéns
Dorian. – Disse a garota jogando a pasta com o novo projeto na mesa.
- Obrigado
Anelise! - A comissão de controle me
informou que vai revisar os protocolos
de procedimento depois do meu ultimo projeto.
Dorian abriu a
pasta para saber qual seria o novo projeto a qual estava encarregado. Ficou
surpreso quando viu que havia sido enviado novamente pela corregedoria do
Exército, e o solicitante era o comandante Aziz.
- Parece que o
comandante gostou de você. - Disse Anelise, sentando ao lado do amigo enquanto
recebia seu café. - Será que mais um dos soldados cometeu suicídio?
Dorian revisou
as folhas, e percebeu que já conhecia aquele prontuário.
- Não, ainda
estamos tratando do mesmo caso... – Disse Dorian passando o relatório para a
amiga.
Anelise viu a
foto, era do soldado Pablo Virgilio Juarez, o mesmo soldado da ultima vez. Ele havia
cometido suicídio novamente na cadeia, poucos dias depois de ter ouvido sua
sentença pelo juiz.
Fim.
Escrito por Edson F. em maio de 2013.
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