segunda-feira, 14 de setembro de 2015

SANGUE






PARTE UM
(por Gi Sauressig)

Havia lágrimas em seus olhos. Porém uma quase imperceptível coragem impedia-as de cair, molhando sua face... Ela sabia que Magner estava em algum lugar daquela casa, sedento, com sua pele branca e aquela voz que a fascinava completamente. Sempre que a chamava pelo nome, um tremor, um desejo inexplicável de se entregar tomavam seu corpo e sua alma. Suas promessas de vida eterna a instigavam. Mas ela fugia. Fugia com medo, com muito medo, pois sabia que aquelas presas agudas entrariam em seu pescoço, perfurando sua carne, e seu sangue jorrando com fúria para fora do corpo, levaria com ele todos os seus sonhos.
Alice ouviu um ruído que vinha de trás das escadas. Era Magner. Era a figura de um anjo, de olhos azul turquesa, penetrante. A garota não tinha para onde correr, e mesmo se tivesse, de nada adiantaria. Já era tarde de mais. Ele se aproximava da garota de pele branca, aguçada pela cor escura de seu vestido, que parecia ter sido manchado de vinho. Seu corpo era alvo, ainda mais embelezado pelo brilho de um colar que pendia de seu pescoço, lindamente caindo entre os mais belos seios do povoado.
Magner tocou seu rosto, causando-lhe um estremecimento que percorreu todo o seu corpo, junto com a delicada e branca mão de vampiro, que descia pelo seu pescoço. Tomou-a então em seus braços, e segurando seus cabelos, cravou seus dentes na carne, sugando o doce sangue da garota, que suspirava e fechava seus olhos lentamente, se entregando àquele prazer inenarrável, seu sangue escorrendo, quente, pelo busto, contrastando com a pele branca, e fazendo o corpo da moça desfalecer nos braços do vampiro, que se banqueteava e tremia junto de sua vítima.
E assim Alice se torna uma bela vampira. Poderosa, amedrontadora, e ao mesmo tempo, fascinantemente linda e perigosa. Entre os braços de seu mestre, sentindo o cheiro forte do sangue em seu vestido, entregando-se aos prazeres antes prometidos pelo seu então criador.

PARTE DOIS
(por Edson F



As cortinas do teatro se fecharam com o final do último ato, a platéia foi ao delírio, aplaudindo em pé efusivamente. Aquela cena havia se tornado comum desde que a peça havia estreado. No início o público comparecia por curiosidade, em grande parte pela presença enigmática da jovem Alice, que fazia o papel principal. Logo toda a imprensa havia se voltado para a pequena garota de olhos esmeralda.
No camarim, Alice limpava o sangue cênico de seu busto, quando alguém bateu na porta e pediu permissão para entrar. Permissão concedida, um repórter de meia idade entrou na pequena sala.
- Henry Jonas, Correio Nacional. - Disse o homem se apresentando.
- Apenas meia hora senhor Jonas. Estou exausta. - Disse a garota, retirando o aplique do cabelo.
- Fascinante sua peça senhorita Alice. Você realmente sabe como cativar o público.
- Acho que as pessoas gostam de historias de vampiros. - Considerou a garota.
- ...Grande parte do publico vem para ver você. Muitos têm curiosidade sobre a sua vida privada. - Comentou o repórter. - Porque você nunca foi vista andando na praia, ou fazendo compras num supermercado?

A garota exibiu um breve sorriso, que escondia uma ponta de melancolia indecifrável.
- Não posso exibir um bronzeado senhor Jonas, atrapalharia a imagem do meu personagem. - Explicou a garota, exibindo a pele branquíssima do pescoço. - As pessoas não iriam engolir a história de um vampiro que pegou insolação.
- Esta é a parte que mais me impressiona Alice. - As pessoas se prendem demais a literatura.
- Bran Stocker. - Concluiu a garota.
Isso. - Historias de vampiros sempre existiram nas mais variadas culturas, que vivem de sangue e que podem se transmutar em animais ou objetos. Eu só penso Alice, que de repente, se os vampiros realmente existirem, eles serão muito parecidos conosco, andarão de dia e comerão pão com alho.
- Acho que o publico não está preparado para a sua abordagem Sr.Jonas, prefere mais a forma clássica... - disse Alice retirando os sapatos.

Alice abaixou-se para abrir uma gaveta na escrivaninha, o repórter admirou-a. Mesmo se estivesse de tênis e sem maquiagem, pensou o repórter, ainda assim seria fascinante.
- Você comentou pelo telefone que tinha uma coisa para me mostrar... - Disse a atriz.
- Realmente. - Respondeu o repórter tirando um envelope da bolsa. - na sua ultima entrevista você comentou que não conhecia seu verdadeiro pai, sabia apenas que ele era um marinheiro romeno, informação passada por sua mãe.
- Foi. - Afirmou a garota. - Ele teve um breve romance com a minha mãe, e voltou para sua terra natal sem saber que ela estava grávida. Estive pesquisando sobre os navios que visitaram a cidade de Recife na época em que você nasceu. Não havia nenhum navio romeno.
- Entendo. - Disse Alice, sem esconder a decepção.

Jonas entregou uma foto ampliada para a moça, reprodução de uma capa de jornal. Na foto um grupo de pesquisadores italianos posava ao lado de um reator.
- Quem são estes homens? Perguntou a garota.
- Um grupo de técnicos de uma empresa espanhola viera para o Brasil à 19 anos atrás, visitar uma usina de energia em Recife. Embora eu não possa identificar na foto, havia entre eles um pesquisador italiano e um romeno, que eu acredito poder ser seu pai. Alice observou o grupo na foto com mais atenção. Uma nova porta se abria para ela e exibia múltiplas possibilidades.
- Consegui os registros da equipe e da tripulação. Estão nos documentos anexos.
- Obrigada. - disse Alice, agradecida, folheando os papéis.
- Espero que isto contribua para que você descubra mais sobre o seu passado. - disse o repórter. - E diminua um pouco esta tristeza em seus olhos.
A garota sorriu. O repórter se despediu e foi embora. Alice pegou o aplique e o recolocou nos cabelos. Uma nova sessão começaria. Mas esta teria um tom diferente.

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AMARGO AMANHECER

AMARGO AMANHECER  ( Edson F / maio/2006)





Deitada sob o  edredon cor de laranja, a garota dormia tranquilamente. Sono pesado, a cabeça no canto da cama, apoiada sobre o braço, a costas viradas em direção a janela. Seus cabelos compridos quase tocavam o chão. Abriu os olhos num impulso, não reconheceu onde estava, o quarto era estranho, não se lembrava do local nem como havia chegado ali. Viu suas roupas intimas espalhadas pelo chão, só então se deu conta que estava nua.

                As roupas expostas na porta do armário e a camisa na grade da cadeira eram indícios de um quarto masculino, recolheu o corpo semi-exposto para baixo do edredom, a dor de cabeça já havia cessado tornando mais fácil à conexão de idéias.
Lentamente ela recordou dos eventos passados, juntando cena a cena, primeiro  estava num bar, lembrava das luzes de neon da junkie box, em seguida um rapaz lhe pagou uma bebida, em certo momento encontrou uma amiga dos tempos de colégio., as duas conversaram, felizes. Houve um momento em que pensou ter  esquecido as chaves de casa, e um outro onde sentiu náuseas e estava prestes a vomitar. De repente, o fogo tomou seu  corpo.
Em outro momento estava nua, na cama com um rapaz ao seu lado, tocando seu corpo. Envolta em abraços, seu sangue fervia, e ela se refrescava com vinho doce. Como se sentisse a presença da lua, como se nascesse e morresse.
A garota tocou o rosto, procurou as sensações ainda grudadas a pele, buscava um pouco do sabor do vinho que escorrera por seu pescoço. Reconheceu seu perfume, e o toque dos tecidos lhe era familiar. Uma relação intensa havia se consumado naquela cama, e ela fez parte dele, embora parecesse ter acontecido com outra pessoa.
Mas agora ela estava de novo em seu corpo e o devaneio dissipou-se no ar. Desorientada vestiu sua roupa.
A garota saiu do quarto, conferiu o cabelo no espelho do corredor. Na entrada da sala estava um homem, sentado no sofá.
-          Preciso ir embora. – Disse ela.
-          Levo você no meu carro. – disse ele pegando as chaves na mesa de centro.
-          Acho melhor não. A gente se vê. – Respondeu ela, apressada.
-          Carol, por favor. Deixe que eu te leve. – Insistiu ele.
A garota recolheu a bolsa que estava em cima da estante ao lado de livros de Pablo Neruda. Sem olhar o rapaz dirigiu-se a porta.
-          Gostaria muito que você ficasse. – Disse o rapaz em voz baixa.
-          Não posso. Disse a garota. A cabeça baixa escondia o olhar por baixo dos cabelos.
-          Eu pensei que ontem... – disse ele hesitante.- Tinha acontecido algo especial.
-          Por mais interessante que tenha sido. – respondeu ela. – Tenho que ir embora. Não existe nada entre nós.
O rapaz ficou em silêncio, não havia mais nada a ser dito.
- Escute Diego, Não leve a mal. Mas você vai encontrar a pessoa certa. A gente se vê.
Foram as ultimas palavras da garota antes de sair.
E o rapaz ficou sozinho no quarto.
O vazio tomou conta do ambiente, Diego ficou observando, um curativo em seu braço. A faixa apresentava uma pequena  mancha de sangue.
-          Entre. Eu sei que você esta me esperando.
Um outro rapaz vestido de branco entrou na  sala, saído da escuridão, sentou ao lado do rapaz de alma torturada. E ai foi divertido? – perguntou ele.
-          Não aconteceu como deveria. – respondeu Diego.
-          Oras, mas ela estava aqui. Vocês transaram a noite toda. Um corpo só. Ela tocou as estrelas e essas coisas todas...
-          Você me enganou. Éfreihn. – Como todo demônio, você me enganou.
O demônio fez esforço para compreender, havia cumprido o trato passo a passo.
-          Lhe dei tudo que você me pediu.- respondeu o demônio, fitando o rapaz nos olhos.
-          Me enganou. E ainda assim provou meu sangue.
O demônio deu a volta na sala, apreciou o sol pela janela da sala. tocou a ponta de uma das flores secas do vaso e está se regenerou. Não entendia como alguém podia ficar trancado em casa com um dia tão bonito lá fora.
-          Até os demônios tem suas leis. Você sabe que eu não posso tocar nos humanos sem permissão.
-          Éfreihn. Você já sabia que isso ia acontecer. Ela foi embora. Não adiantou nada.- Disse o  rapaz.
O demônio mostrou-se levemente decepcionado.
Vocês dormiram juntos, não era isso que você queria?
-          Não Éfreihn, você não entendeu. Eu queria que ela me amasse.
O demônio baixou a cabeça, meditou por alguns momentos. Por um instante cessou o vento dentro da sala.
-          Amor. – Sorriu Éfreihn - Você está confundindo as coisas Diego, se queria amor, pediu ajuda para a entidade errada.
O vento voltou a circular. O demônio saiu da frente dos raios de sol e desapareceu na escuridão.


Fim

( Edson F / maio/2006)

O ULTIMO BEIJO







Era chegada a ultima semana do outono, um vento frio murmurava uma antiga canção entre as folhas das arvores. As noites chegavam mais cedo, com a escuridão, os camponeses daquele pequeno vilarejo evitavam andar sozinhos ao final da tarde.
Haviam vários rumores e superstições que rondavam aquelas pessoas, quanto mais especulavam sobre fatos supostamente ocorridos, mais se distanciavam da realidade.
Quando os corpos de dois camponeses foram encontrados degolados no meio de uma plantação, e o sangue misturou-se a terra junto das sementes, a inquietude se instaurou, e logo foi encontrado um responsável que explicasse de forma racional o motivo daquele  crime. Alguém que tivesse a própria existência envolvida em mistério.
Para muitos a principal suspeita era uma jovem mulher que morava solitária na casa próxima ao rio, que venerava o sol e conversava com as plantas. Era um detentora de saberes proibidos. Por muitos chamada de bruxa.
Esta moça misteriosa tinha um problema mais urgente para resolver naquela noite. Matar a própria fome.
 A água no caldeirão refletia turva o rosto de traços delicados de Cris,  a garota emergiu um a um os vegetais, molhando a ponta dos dedos. O fogo pôr momentos parecia atraído pôr sua pele. Cantava uma melodia ainda mais antiga que a canção do vento.
            Cris estava cansada, havia trabalhado o dia inteiro. Aquela seria a sua primeira refeição do dia.  Tampou o caldeirão com cuidado. Seus movimentos eram acompanhados minuciosamente pôr um gato que estava em cima da mesa.
            Devo ter alguma receita que combina com gato em algum lugar. Disse ela brincando. 
Houve um movimento forçando a abertura da porta. O barulho assustou o  felino, que deu um salto e subiu as escadas de madeira que davam para o dormitório na parte superior da casa.
Um homem alto adentrou a sala, vestia uma capa de pele característica de um caçador. Trazia consigo um coelho selvagem abatido, o animal foi posto sobre a mesa.
-          Pensei que você não viesse mais. – Disse a garota.
-          Sempre cumpro minhas promessas. – disse o homem sentando-se. – O povo la fora parece agitado, é estranho não terem entrado aqui.
-          Eles tem medo de mim. - Justificou Cris. – Temem o que não conhecem.
 Você guardou minhas coisas? – Perguntou o homem.
-          estão bem escondidas...- Respondeu a moça.
A garota subia as escadas e foi até o quarto, momentos depois retornou com uma mochila feita de pele de carneiro em uma das mãos, e uma espada na outra apoiada no ombro.  O homem pegou as coisas com cuidado.
Cris aproximou-se, o homem segurou em suas cintura, a garota tocou-lhe o rosto, o longo cabelo do homem encobria uma cicatriz. “lembrança de guerra” disse ele anteriormente. Ela inclinou-se e os dois se beijaram.
O gato observava a movimentação de longe, de olho na carne do coelho exposta.
Ao final do beijo, ainda com os lábios úmidos, o homem apertou  uma das fivelas do vestido da garota, na altura do ombro.
-          Não fica bem para uma garota sair a noite por ai assim.
Cris sorriu. Por um momento não parecia correr risco de morte.
-          Será que conseguiremos ir embora sem problemas? – Perguntou ela.
-          Se alguém tentar intervir, terá que prestar contas ao aço da minha espada.- Disse ele, exibindo a arma, o  artefato era pesado e largo, trazia escritas estrangeiras marcadas a fogo em sua bainha, seu metal polido reluzia à luz de velas.
Como conseguiu está espada?
-                     Tomei de um viajante, disse ele. Mas foi numa disputa limpa. – Justificou ele sorrindo.
-          Os camponeses não viram você chegar aqui?
-                     Sou uma pessoa furtiva Cris. Um ladrão profissional.  Sou uma criatura das sombras. Ninguém  pode perceber minha presença a não ser se eu queira...
-          Os homem sempre são mais confiantes quando estão com uma espada na mão...- disse ela. O rapaz sorriu guardando novamente a espada na bainha. Por um momento sentiu-se tonto e apoiou-se na mesa.
-          Você sabe o que dizem por ai Aijin? É assim que você se chama não?
O rapaz mostrou-se surpreso. Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome. Sentiu suas veias repuxarem, espalmando a mão sobre a mesa.
Dizem que sou um bruxa, que fiz um pacto com o mal...que posso jogar pragas sobre as pessoas...
- você acredita mesmo que alguém pode voar ou invocar dragões?- Perguntou ela. – Talvez uma bruxa esteja mais interessada em obter conhecimento, e que possa traduzir escrituras antigas, ou estrangeiras, como a da sua espada...
O homem estirou o braço tentando agarra-la . A garota deu um passo para trás, fitando-o nos olhos. O sabor do veneno subiu-lhe a garganta.
-                     Os moradores desta vila são ingênuos, como eles podem achar que uma garota pequena como eu teria forças para sobrepujar dois camponeses empunhando enxadas? Talvez eles não entendam que eu sou apenas uma amante da quiromancia, e que fabrico  medicamentos, e não poções diabólicas... Teria que ser alguém forte, alguém com treinamento militar não é verdade Aijin?
 A visão do homem escureceu, ele curvou as pernas num ultimo esforço,  caindo no chão lentamente , com a cara no assoalho.
-          as pessoas estão tão preocupadas com a magia negra, que não percebem que os dois irmãos mortos eram donos de terras produtivas, e que agora, a pessoa mais beneficiada, será o homem que se casar o a irmã mais nova deles...
Calculo que você deve ter investido seus olhares sedutores para a garota, não Aijin?
O homem nada respondeu. Já estava morto, antes do final da ultima frase.
A garota  foi embora do vilarejo com os primeiros raios de sol. Ninguém interviu.
Aijin, havia prometido entregar seu corpo para os camponeses. Virando o herói local, seria fácil desposar quem ele quisesse. Mas sua morte mudou tudo, ninguém estava disposto a enfrentar  a bruxa que venceu o guerreiro.



Fim                                                      (Edson F. emodem@ig.com.br. julho de 2006.



Depois da Tempestade









Sentado próximo a lareira, Henrique buscava conforto na madeira que queimava lentamente, mas o calor parecia não alcançar sua pele, era como estar morto. Nos sonhos, quando se toma uma taça de vinho, esta não tem nenhum sabor. Porque será então que os beijos são tão calorosos? Você pode acordar no outro  dia e relembrar da sensação do toque. E está sensação pode ser tão intensa que ira lhe perseguir o dia todo. O beijo de Aline ainda estava em sua mente, e se fazia presente a cada segundo. Exatamente igual ao dos sonhos.
Henrique tentou alcançar a garrafa de vinho ao seu lado, esbarrou a mão na taça que rolou pelo carpete, percebeu então que estava bêbado e era a hora de parar.
Do lado de fora a tempestade dava sinais de que iria ceder, perdera sua força, e seu grito dava lugar ao murmúrio do vento.
Alex entrou na sala correndo, suas roupas estavam encharcadas, parou ofegante próximo a Henrique, trazia em sua face um tormento indescritível.
-          Deu tudo errado Henrique ! Tudo errado!
Henrique pediu a Alex que se acalmasse. Mas ele ameaçou sair correndo.
- Você precisa ir comigo até o lago , agora!
-          Acalme-se , e me diga o que aconteceu.
O rapaz, perturbado, sentou-se por alguns instantes em outra poltrona. Mas logo estava em pé novamente dando voltas pela sala.
-          Isso não pode estar acontecendo... – Disse ele esfregando a própria nuca.
-          Respire fundo e me conte desde do inicio. – Pediu Henrique, flertando com a garrafa de vinho.
-          Aline está morta Henrique ! Morta! – Você entende o que isso quer dizer? – Gritou o rapaz segurando o amigo pelos colarinhos. – Parecia tudo perfeito, estávamos os dois no barco, já havíamos conversado sobre um monte de coisas...
-          Continue... – Pediu Henrique , alcançando a taça de vinho.
-          A gente teve uma discussão. O barco acabou virando... Eu tentei socorre- lá , eu juro!
Henrique encheu novamente a taça, apreciou a garrafa por alguns instantes. Aquela era a ultima, pensou. Ao seu lado sentado na poltrona próxima a janela, Alex chorava convulsivamente.
-          O que vai ser de mim o que nós vamos dizer quando voltarmos?- Perguntou Alex, com as palavras cheia de dor.
-          Sobre o que vocês discutiram? – Quis saber o outro.
-          Eu pensei que estava bem entre nós, que nós iríamos ficar juntos. Mas Aline estava mudada. Disse que não tinha mais certeza. Eu tentei beija-la...
-          Ela se negou e você tentou agarra-la a força. - Completou Henrique.
-          Foi. Nós perdemos o equilíbrio e o barco virou.
-          Onde esta Aline agora? - Perguntou Henrique.
-          Na areia. – Revelou Alex. – Você precisa ir vê-la.
Henrique concordou,  os dois saíram da cabana. A chuva já havia parado. Apenas um leve chuvisco caia naqueles rapazes.
Alex corria desorientado. Henrique o seguia com a garrafa de vinho.
-          Onde está o Suzuki ? – Perguntou Alex.
-          Atolado. – Respondeu Henrique apontando. -  Nós deixamos o carro em um local que inundou.
Os dois chegaram a beira do lago.  Henrique tomou o último gole de vinho e jogou a garrafa longe. Alex andou de um lado para o outro. Procurou , mas não encontrou:
- Eu deixei ela aqui. Tenho certeza.
-          Eu sei. – Disse Henrique.
-          O que será que aconteceu com o corpo dela?
Henrique caminhou até a árvore onde os dois haviam montado a barraca, tinham a idéia de passar as noites próximo ao lago. Simulariam um “luau”. Com a chegada da tempestade tiveram que desistir e ficar na cabana. Ainda havia um resto de fogueira e flores que Aline havia colhido para enfeitar o acampamento.
-           Aline esta aqui. Apontou Henrique pára a um saco de dormir .
-          Como, se eu a deixei na beira do lago a poucos momentos?
Henrique abriu o saco de dormir , o corpo de Aline descansava sem vida. Era como se estivesse adormecida. Mas já estava morta a dias.
- Eu a trouxe pra cá. – Revelou Henrique. – Coloquei alguns cubos de gelo para preservar o corpo, acho que deu algum resultado.
-          Mas como, não houve tempo! – Protestou Alex. – repetindo o gesto de esfregar a cabeça.  
-          Na verdade houve tempo de sobra. – contou  Henrique -  Alex, o acidente que você me conto aconteceu a uma semana. Você realmente tentou salvar Aline, mas já era tarde de mais. Decidimos coloca-la no saco de dormir. Teríamos ido embora se não fosse a tempestade. Você não lembra ? Nós tentamos desatolar o Suziki da lama.
Henrique fechou novamente o saco de dormir. Lembrou por um instante o beijo de Aline. E que sua voz ficava rouca nos dias frios. Ao seu lado Alex apenas observava.
-          O que aconteceu depois ? perguntou.
-          Você se desesperou. Machucou o braço em nossa tentativa de colocar o carro na estrada. Então você foi embora. Fugiu. Disse que não agüentaria ficar aqui com Aline morta.
-          Mas o que aconteceu comigo? Porque eu não me lembro ?
-          Essa é a parte pior Alex. A chuva aumentou quando você foi embora. Eu não entendi quando você retornou no dia seguinte desesperado dizendo que Aline precisava de ajuda. Eu acompanhei você até a praia e você desapareceu.
-          Não entendo. – Disse Alex com a voz miúda.
-          No outra dia fui até a estrada pedir ajuda , uma parte do asfalto havia deslizado. Foi lá que eu encontrei seu corpo.
-          Meu corpo?
-          Isso mesmo. Você morreu um dia depois de Aline. Mas por alguma  razão não consegue se lembrar. Esta já é a quinta  vez que você volta para a cabana. Quando descobri que estava morto fiquei aterrorizado. Naquela noite você retornou. .Me tranquei no quarto enquanto ouvia seus gritando na sala. Achei que havia voltado para me atormentar.
Henrique Lamentou não ter trazido mais uma garrafa de vinho. Alex não parecia mais desesperado e relembrava aos poucos os fatos ocorridos depois do acidente do barco, enquanto Henrique continuava a explicar:
-          Então você volto de novo e de novo. Na terceira vez fiquei te observando pela porta. E ontem decidi conversar. Presumi que a única forma de fazer com que  entendesse fosse trazendo-o aqui.
-          Onde está meu corpo agora ? – Perguntou Alex se tocando.
-          Enrolado em uma lona perto da estrada. Não consegui traze-lo.
Alex parecia conformado. Talvez não houvesse mais lugar para ele no mundo sem Aline. Quem sabe se sobrevivesse, acabaria se matando.
 A sensação da lama fria cobrindo seu corpo, a asfixia e finalmente a paz. “Realmente estou morto”, pensou ele.
Henrique observou Alex por um momento, tinha o desejo quase cientifico de vê-lo desaparecer.
-          O que será de mim agora?- Pergunto Alex. – Será que esquecerei de tudo, e retornarei dia após dias para assombrar a casa?
-          Sinceramente não sei. – disse Henrique. - Não estarei aqui para saber. A chuva já parou e amanhã a lama estará seca o bastante para que eu coloque o Suzuki na estrada.
Não existem palavras para consolar um morto. Pensou Henrique, lhe ocorreu que um dia poderia também receber uma visita de Aline.
Alex foi embora sem se despedir, andou em direção ao lago e desapareceu na escuridão.


                                         Fim

Escrito por Edson F. em março de 2004 .( contato: emodem@ig.com.br).


APRECIE O SILENCIO








Perdido entre as árvores do jardim, um rapaz caminhava desorientado entre as flores, não fazia mais noção de quanto tempo estava ali. Apenas corria de um lado para o outro, tentando-lo encontrar algo familiar. Entre as arvores havia algumas construções, adornos e pequenos muros que separavam um verdejante gramado. Alguns cercados serviam de suportes para arranjos de flores e trepadeiras que se misturavam e confundiam-se com o ambiente. Lembrava um imenso clube de campo, de tão vazio poderia até ser um cemitério, embora não houvesse nenhuma indicação de que haviam pessoas enterradas por lá. “O que eu estou fazendo aqui?” pensou o rapaz. Sua ultima lembrança era de estar praticando escalada próximo de uma cachoeira. Lembrava de estar a poucos metros do chão, quando pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, mas não se lembrava da queda. “estou morto” foi seu segundo pensamento.
Mas não se sentia morto, ao contrário sentia-se bem vivo, podia ouvir seu coração pulsar acelerado, sentia o calor dos raios de sol que atravessava a copa das árvores. Seu hálito tinha o sabor da barra de cereal que comera horas antes, e seu corpo ainda vibrava quando fragmentos da lembrança de uma garota vinham a sua mente.
                “Não posso estar morto”, pensou ele. – O sentimento de amor que sentia por Vanessa transbordava seu ser, era seu elo com mundo e o impulsionava a viver. “quando a gente morre o amor acaba” pensou ele. Ninguém iria passar o resto da eternidade amando tanto alguém, concluiu. Seria cruel demais.
                O barulho de água e a umidade do ar indicavam um pequeno rio por perto. Após um tempo de caminhada o rapaz chegou a um descampado de onde ele acreditava estar a água. De um pequeno morro viu a imagem de uma garota próxima do leito do rio. A primeira vista pensou tratar-se de Vanessa, mas o que ela estaria fazendo dentro de seu sonho idílico?
                Aproximou-se cautelosamente. Mais próxima, a garota de costas já não se assemelhava a Vanessa, seus cabelos elas mais claros e refletiam o brilho do sol, acompanhando o reflexo na água. Parecia ser mais jovem e estava descalça. Olhava perdidamente para o horizonte e parecia apreciar o silêncio.
                O rapaz ficou parado por um momento a alguns passos da garota. Procurava palavras para abordá-la. O simples “oi” poderia assustá-la naquele local tão deserto, e se ela saísse correndo, com ela iriam as respostas sobre o que ele fazia ali. Criou coragem, engoliu seco e iria dizer algo, mas a garota virou-se primeiro, percebendo sua presença. Abriu um sorriso e saudou sua chegada.
                - Está se sentindo perdido não é? Perguntou ela.
                - Bastante, respondeu o rapaz. – onde nós estamos? Perguntou ele.
                - Não sei...  - respondeu ela. - Dentro do meu sonho, talvez.
                O rapaz não se sentia personagem de sonho. Tinha vida própria, seu amor era verdadeiro, pensou ele. Um intruso talvez, mas não havia sido imaginado pela garota.
                - Ou talvez eu esteja sonhando e você faça parte do meu sonho. – Disse ele.
                -Isso também pode ser. Brincou a garota. - Explicaria muita coisa.
                O rapaz caminhou até a borda do rio. Olhou seu reflexo na água, ao seu lado havia uma pedra, e nela havia algo escrito.
- Jéssica. – Adiantou a garota. – é o meu nome. A única coisa que sei. Fui eu quem escreveu ele ai...
- Você não se lembra de mais nada? – Perguntou ele.
- Não. – disse ela sem forçar muito a memória.
- Seus pais, onde você mora, sua cor favorita... – tentou ele.

- Acho que tenho mãe. – Disse Jessica. - Mas não me lembro do rosto dela. De qualquer forma, a sensação de que ela existe me parece mais importante. E eu sinto que ela esta aqui comigo.
O rapaz pensou por alguns instantes, tentou refazer seus passos.
- Deixa ver. - Disse ele, - Lembro de descer do ônibus. Lembro de ter visto algumas garotas andando de bicicleta, comprei um mapa com um guia turístico...
- Nossa. - Exclamou ela. – Tudo isso aqui?
- Não. – respondeu ele. – Em um lugar parecido, mas não aqui. A vegetação era diferente e havia uma cachoeira próxima de onde eu caí.
- o que é uma cachoeira? – perguntou ela, O rapaz sorriu imaginando a gravidade do tombo que a garota devia ter levado.
- É uma extensão do rio, mas a água desce na vertical. – explicou ele.
- Tem algo assim aqui próximo. – Lembrou-se Jessica.
Os dois combinaram de ir juntos a cachoeira. No caminho o rapaz revelou seu nome, Raphael. Contou algo sobre seu relacionamento com Wanessa. Sobre como as horas se arrastavam quando eles não estavam juntos, e sobre sua mania de concertar objetos.
 Subindo por uma trilha que se distanciava do rio, podia-se ver o alto da colina, e ouvir o barulho da água caindo, só então Raphael se deu conta de que outras pessoas também haviam passado por lá.
- você já se encontrou com outras pessoas por aqui? - perguntou ele a Jessica.
- Claro. – respondeu Jessica. – mas você é o primeiro a me contar sobre detalhes da sua vida. O resto das pessoas que eu encontrei estavam desmemoriadas como eu.
- E o que aconteceu com eles? – perguntou o rapaz.
Não sei, depois de certo tempo eles desapareciam entre as arvores e não mais voltavam.
Chegaram próximo a cachoeira. Raphael olhou a sua volta. Alguns pássaros afugentaram-se com a presença dos dois, mostrou-se intrigado, não era a mesma cachoeira onde havia sofrido o acidente, mas parecia terrivelmente semelhante.
- Este lugar... – disse ele. - É familiar. O cheiro, parece que eu já estive aqui a muito tempo atrás.
Jéssica contemplou a cachoeira por alguns momentos, alguns pingos d água atingiram seu cabelo.
- Você faz alguma idéia de onde estamos? – perguntou ela.
- Não sei Jessica. – não consigo imaginar porque viemos para cá, nem porque você não recorda de momentos antes de chegar aqui.
Jessica olhou para o alto, tentou enxergar de onde vinha a água. Ao lado da cachoeira um paredão de pedras se estendia formando um grande muro.
- o Maximo que andei foi até aqui. – disse ela. – Mas você pode passar para o outro lado...
Raphael examinou as pedras e alguns galhos no barranco. Podia vencer aquele obstáculo. Só tinha duvidas sobre o que encontraria do outro lado. Mas mesmo que escalasse, não havia forma de levar Jessica com ele.
- Você vai ter que me esperar aqui. – disse o rapaz com pesar.
- Sinto que você não ira voltar. – como as outras pessoas.
- Mas eu sinto que em breve a gente vai se ver. – Disse Raphael, encerrando com um sorriso.
Raphael apoiou-se em uma saliência na pedra, em um impulso já estava a dois metros do chão. Embaixo Jessica observava apreensiva. Uma queda daquela altura e ele quebraria o pescoço, pensou ele. “Vanessa iria ficar muito brava comigo”.  Era o mesmo pensamento que havia passado pela cabeça de Raphael.
Raphael pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, veio a queda e com ela escuridão.
Ao invés de sentir o impacto, sentiu uma sensação de conforto, mas este foi interrompido por um solavanco. As mãos estavam dormentes e o corpo dolorido. O rapaz acordou em um carro, deitado no banco de trás.
- Minha cabeça ta doendo... – disse ele. Do banco do motorista, ouviu uma voz e mulher.
- Você levou um tombo daqueles. – Disse a mulher que dirigia a picape. – Mas eu vou te levar para um hospital. Acho que você ficou desacordado por certo tempo.
Raphael pensou reconhecer o tom da voz. Levantou a cabeça com dificuldade, enxergou uma bolsa com pertences femininos no banco da frente. A mulher que dirigia o carro tinha os cabelos claros lisos e compridos, iguais ao da garota encontrada na borda do lago.
- Obrigado por me socorrer. – disse Raphael, com a mão na cabeça, ainda enjoado pelo tombo.
- Na verdade não fui eu. – disse a mulher sorrindo. - Foram alguns rapazes que estava fazendo trilha próximo à cachoeira. Eu não poderia te ajudar. Ainda mais nestas condições, disse ela mostrando a barriga saliente. – Estou grávida. - Completou ela.
- Tive um sonho muito estranho. – comentou Raphael. – Encontrei uma garota chamada Jessica, na beira de um rio, e no sonho também sofri uma queda...
- Interessante. – comentou a mulher, observando o semáforo na entrada da avenida que dava para o hospital. – Estava pensando neste nome para a minha filha que está pra nascer.
A mulher parou a picape na área de emergência do hospital. Dois enfermeiros aproximaram com uma maca.
- Você iria gostar de conhecer meu marido, ele também gosta de esportes radicais. –Disse ela. – Quem sabe você me visita, quando o bebê nascer...
Raphael fez um sinal de Ok com o polegar, fechou os olhos e adormeceu novamente.


Fim.

Historia escrita por Edson F. em agosto de 2008.

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Religado








A garota de cabelos preto azulados desceu a escada lentamente, trazia em suas mãos os registros técnicos projeto a ser desenvolvido naquela semana. No décimo quarto andar do Instituto Bio Humano, ficavam os laboratórios de regeneração.
Próximo ao tanque de contensão, estava Dorian, o supervisor Substituto, que aguardava os registros, enquanto conferia os dados coletados da ultima analise no computador de processo.
Dorian recebeu a pasta com os registros e agradeceu a Anelise sem muito empenho, quando pensou em ser mais incisivo a garota já estava longe. Havia subido a pequena escada metálica para chegar aos medidores nos tubos de alimentação.
- O neuro compositor já está ativo, Dorian. Pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. – Disse a garota.
Dorian sorriu pela brincadeira, mas estava nervoso, a ultima tentativa de regeneração havia falhado em seus momentos finais. Era questão de tempo para que a direção do laboratório questionasse sua capacidade de coordenar projetos de regeneração.
- Comece a essa droga logo de uma vez! – gritou Anelise, abrindo os registros que controlavam a alimentação dos tubos. O grito assustou Gustavo, o técnico de processos que auxiliava Dorian. O supervisor substituto teclou um código no computador e por um instante a sala começou a estremecer. Os nutrientes coloridos passaram a preencher os tubos em direção ao tanque de regeneração.
- Ligue o canhão foto-cromático, você os opera melhor do que eu. Disse Dorian para o amigo. Gustavo conferiu os parâmetros em uma tela vertical secundaria e ativou os projetores de luz.
            Um aviso luminoso surgiu na tela de Dorian, Carga de regeneração em 73%. Lentamente as cadeias de proteínas começaram a formar um grupo de tecidos, numa orientação segmentada em meio ao borbulhar do líquido verde e espesso que preenchia o tanque.
Dorian exibiu um sorriso de satisfação quando viu a silhueta de um corpo humano começar a formar-se no tanque, mas a estrutura se desfez levando consigo o sorriso de Dorian.
            Os tubos de alimentação foram fechados automaticamente pelo sistema de segurança, e um alerta de estado crítico irreversível surgiu na tela do computador de processo.


***




Dorian subiu para o refeitório, sentou-se ao lado de Anelise que almoçava, mas não tirava os olhos de seu Multipad, os cabelos pretos azulados longos encobriam uma parte de seu rosto. Dorian pensou que talvez por alguma razão, os dois poderiam ser mais próximos, só faltava encontrar um bom argumento para dizer a ela.
- Mais um projeto inconcluído. Lamentou o rapaz.
- Você fez o procedimento correto. Ponderou Anelise, sorvendo mais um gole de suco concentrado. - ...Garantiu a integridade da máquina, você não vai conseguir uma promoção para supervisor geral se causar algum dano aos sistemas de refrigeração. Foi um processo cem por cento seguro.
- Anelise voltou a olhar para a base de dados, fez um movimento rápido com os olhos e o Multipad trocou a página.
- talvez seja isso... – Pensou alto Dorian. – Talvez eu esteja cauteloso demais.
O rapaz saiu do refeitório pensando na pilha de relatórios que precisava preencher. O gerador do canhão foto cromático ainda lhe garantia mais um bombardeio para aquele dia, desde que Gustavo revesse os protocolos de segurança. Dorian dobrou o corredor e foi até a sala do amigo.
Quando chegou, o técnico já estava juntando as coisas para ir embora. Dorian entrou na sala sem bater. Gustavo sentiu que daquela atitude não vinha coisa boa.
- Quero que você reveja os processos de segurança.
- Por mim tudo bem - Respondeu Gustavo. – Farei isso na próxima segunda.
- você não esta pensando em ativar o mesmo projeto de novo não é?
- Claro que não... – Mas preciso saber se seria possível.
Gustavo e Dorian voltaram ao laboratório, o técnico foi até seu computador e rodou um diagnóstico acelerado do último processo. Dorian preferiu não informar Anelise que havia retornando ao laboratório, ela certamente desaprovaria.
Dorian conferia o nível dos reservatórios de fluido, quando um dos funcionários da administração entrou no laboratório acompanhado de um militar fardado. Por um instante, Gustavo, o operador do canhão foto cromático achou que os dois seriam presos.
- Esse é o comandante Aziz, veio inspecionar o nosso projeto, disse o funcionário, apresentando o homem.
- Muito prazer senhor Dorian, vim verificar como está o nosso homem. Ele era um membro importante no meu regimento, e preciso assegurar que o seu retorno seja bem sucedido.
- Estamos fazendo os ajustes necessários, mas temos bons prognósticos., senhor comandante.
- você é o supervisor substituto certo?

- Sim. A doutora Carletti é a nossa diretora de desenvolvimento, e responsável pelos projetos.
- Entenda senhor Dorian, a corregedoria do exército está me pressionando por resultados, preciso retornar com algo palpável em mãos. O financiamento do seu laboratório depende disso...
- Entendo... – respondeu Dorian engolindo seco.
- Quando vocês farão o próximo teste? – perguntou ele.
- Estamos terminando os preparativos agora senhor Aziz. O Senhor pode ficar para acompanhar o processo. Disse Anelise, entrando no laboratório.
O sargento, expressou um ar de satisfação diante da presença da linda garota.
Gustavo levou a mão à cabeça preocupado. Sentiu seu emprego em risco, e percebeu estar numa grande enrascada. Dorian gaguejou algo e puxou o amigo para o fundo do laboratório, aproveitando que o militar estava distraído com a presença de Anelise.
- Cara, vai ser muito feio se o sargento presenciar o nosso fracasso... – Advertiu Gustavo.
- Meu futuro aqui no laboratório depende disso... eu só preciso que você acene com a cabeça... – Suplicou Dorian.
Gustavo consentiu com um gesto e Dorian agradeceu com um olhar pelo voto de confiança de Anelise, que apresentava as instalações para o militar.

***

Anelise subiu novamente as escadas metálicas para checar os medidores.
- O neuro compositor já está ativo Dorian, pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. – disse ela em voz alta.
            O sargento ficou em duvida se aquilo era uma piada interna, por precaução, deu dois passos para trás.
            Dorian teclou o código de execução no computador e novamente a sala começou a tremer. O oficial deu mais dois passos para trás por segurança e observou o tanque de contensão borbulhar. Dentro, a silhueta de um corpo disforme bailava lentamente ancorada pelas conexões e tubos de nutrição.
            Um aviso luminoso surgiu na tela do computador de processos: “Carga de regeneração em 73%”.
            Por um instante o supervisor substituto teve a visão de um Dorian desempregado, arrasado e entregue a bebida.
- Vamos alterar para 85%  - gritou ele.
            - Estaremos 10% acima da margem de segurança, advertiu Gustavo.
            - Relaxe, tranqüilizou Dorian. - Estamos utilizando o protocolo mínimo.
            Aziz ficou impressionado com a determinação da equipe, aproximou-se do tanque de contenção e viu o corpo de seu soldado boiando no liquido verde.
      
A mensagem de projeto concluído surgiu na tela do computador central.
            Anelise cruzou a sala e foi ao encontro de Dorian. Foi a primeira vez que os dois se abraçaram.

***

O comandante Aziz voltou para o quartel muito satisfeito com o sucesso do processo de regeneração. Gustavo retornou para o laboratório mais cedo na outra semana, para checar se o excesso de esforço não havia avariado a estrutura da máquina.
Uma semana após a regeneração, o soldado já se recuperava no ambulatório, Dorian, Anelise e Gustavo foram chamados, assim que ele voltou à consciência.
Os três se sentaram a sua volta, dentro do quarto, enquanto o soldado dormia. Acordaria assim que o efeito de sua medicação passasse.
- Minha cabeça está doendo. – Disse o soldado, passando a mão na cabeça e notando os eletrodos grudados em sua testa com esparadrapos.
Dorian levou um susto, pois estava olhando pela janela no momento que o rapaz acordou.
- Quem são vocês? – perguntou ele.
- Somos técnicos do laboratório de regeneração. – Disse Dorian se Apresentando. Eu sou Dorian, essa é a minha assistente Anelise, e aquele ao fundo é meu técnico de processos, Gustavo.  O soldado olhou os dois por alguns segundos, até entender que estava num hospital.
- Preciso voltar pro quartel, hoje é dia do meu turno... – completou o soldado, meio confuso.
- É melhor você descansar até se recuperar. - Disse Dorian, ajeitando o travesseiro do homem. – Nós estamos em um ambulatório e você ainda precisa fazer alguns exames.
- Cara, estou sentindo uma dor no peito. – Disse o soldado, simulando dificuldades para respirar. Anelise tomou a frente de Dorian para lhe explicar.
- Você sofreu um ferimento grave, tivemos de reconstruir uma parte da sua mandíbula e  pescoço.
A atenção de todos se voltou para a porta do quarto que se abriu, era o comandante Aziz entrando. Ao ver o comando o soldado na cama bateu continência.
- Descansar, soldado. – Respondeu o comandante. – vejo que você está se recuperando bem, eu nunca tinha conversado com uma pessoa regenerada antes.
- O que aconteceu comigo, por que eu estou aqui? – perguntou o paciente.



- Você lembra do rigor e do estresse de servir a sua pátria meu jovem, algo que você tentou compensar com medicamentos. Houve uma discussão entre você e outros dois soldados do seu regimento, você acabou dando um tiro de fuzil nos dois. Estão mortos agora.
- Eu matei dois soldados? – Perguntou o homem na cama, o comandante Aziz apenas acenou com a cabeça.
- E quem causou o ferimento no meu pescoço?  Perguntou o rapaz, confuso.
- Você mesmo. Cometeu suicídio dias antes do seu julgamento. - Respondeu Aziz. – Assim que você se recuperar, o levaremos de volta a corregedoria, uma nova audiência foi marcada, e você precisa estar vivo para ouvir a sentença.
A chefe da enfermaria entrou na sala naquele momento, e pediu que todos se retirassem.
- Vocês precisam sair agora, o paciente precisa receber medicação suplementar.
Dorian e seus amigos saíram, no corredor, o comandante Aziz chamou a atenção de Dorian.
- Fizeram um ótimo trabalho. Vocês contribuíram com um assunto de ordem nacional. – Disse ele. – Terão minhas recomendações.
- Obrigado senhor. – Limitou-se a agradecer Dorian, ainda perplexo com o assunto.
Os Três foram se embora, na entrada do quarto, dois soldados ficaram de vigia, para o caso de algum imprevisto acontecer com o paciente.

***

Quatro semanas após o procedimento ser concluído com êxito, a Doutora Carletti assumiu a direção geral do Laboratório de regeneração.  Dorian então foi promovido para Supervisor pleno, e ganhou sua própria sala. Graças em partes a intervenção do comandante Aziz, e as recomendações da corregedoria do Exército.
No dia de assumir seu novo cargo, aguardou ansiosa a presença de Anelise, com quem dividiria seu mais novo projeto. Dorian ficou sentado no refeitório revisando seus dados no multipad, quando a garota chegou.
- Parabéns Dorian. – Disse a garota jogando a pasta com o novo projeto na mesa.
- Obrigado Anelise! -  A comissão de controle me informou que vai revisar  os protocolos de procedimento depois do meu ultimo projeto.
Dorian abriu a pasta para saber qual seria o novo projeto a qual estava encarregado. Ficou surpreso quando viu que havia sido enviado novamente pela corregedoria do Exército, e o solicitante era o comandante Aziz.

- Parece que o comandante gostou de você. - Disse Anelise, sentando ao lado do amigo enquanto recebia seu café. - Será que mais um dos soldados cometeu suicídio?
Dorian revisou as folhas, e percebeu que já conhecia aquele prontuário.
- Não, ainda estamos tratando do mesmo caso... – Disse Dorian passando o relatório para a amiga.
Anelise viu a foto, era do soldado Pablo Virgilio Juarez, o mesmo soldado da ultima vez. Ele havia cometido suicídio novamente na cadeia, poucos dias depois de ter ouvido sua sentença pelo juiz.



Fim.


Escrito por Edson F. em maio de 2013. contatos: emodem@ig.com.br