AMARGO AMANHECER ( Edson F /
maio/2006)
Deitada sob o edredon cor de laranja, a garota dormia
tranquilamente. Sono pesado, a cabeça no canto da cama, apoiada sobre o braço,
a costas viradas em direção a janela. Seus cabelos compridos quase tocavam o chão.
Abriu os olhos num impulso, não reconheceu onde estava, o quarto era estranho,
não se lembrava do local nem como havia chegado ali. Viu suas roupas intimas
espalhadas pelo chão, só então se deu conta que estava nua.
As roupas expostas na porta
do armário e a camisa na grade da cadeira eram indícios de um quarto masculino,
recolheu o corpo semi-exposto para baixo do edredom, a dor de cabeça já havia
cessado tornando mais fácil à conexão de idéias.
Lentamente ela recordou dos
eventos passados, juntando cena a cena, primeiro estava num bar, lembrava das luzes de neon da
junkie box, em seguida um rapaz lhe pagou uma bebida, em certo momento
encontrou uma amiga dos tempos de colégio., as duas conversaram, felizes. Houve
um momento em que pensou ter esquecido
as chaves de casa, e um outro onde sentiu náuseas e estava prestes a vomitar.
De repente, o fogo tomou seu corpo.
Em outro momento estava nua,
na cama com um rapaz ao seu lado, tocando seu corpo. Envolta em abraços, seu
sangue fervia, e ela se refrescava com vinho doce. Como se sentisse a presença
da lua, como se nascesse e morresse.
A garota tocou o rosto,
procurou as sensações ainda grudadas a pele, buscava um pouco do sabor do vinho
que escorrera por seu pescoço. Reconheceu seu perfume, e o toque dos tecidos
lhe era familiar. Uma relação intensa havia se consumado naquela cama, e ela
fez parte dele, embora parecesse ter acontecido com outra pessoa.
Mas agora ela estava de novo
em seu corpo e o devaneio dissipou-se no ar. Desorientada vestiu sua roupa.
A garota saiu do quarto,
conferiu o cabelo no espelho do corredor. Na entrada da sala estava um homem,
sentado no sofá.
-
Preciso ir embora. – Disse ela.
-
Levo você no meu carro. – disse ele pegando as chaves na mesa de
centro.
-
Acho melhor não. A gente se vê. – Respondeu ela, apressada.
-
Carol, por favor. Deixe que eu te leve. – Insistiu ele.
A garota recolheu a bolsa
que estava em cima da estante ao lado de livros de Pablo Neruda. Sem olhar o
rapaz dirigiu-se a porta.
-
Gostaria muito que você ficasse. – Disse o rapaz em voz baixa.
-
Não posso. Disse a garota. A cabeça baixa escondia o olhar por baixo
dos cabelos.
-
Eu pensei que ontem... – disse ele hesitante.- Tinha acontecido algo
especial.
-
Por mais interessante que tenha sido. – respondeu ela. – Tenho que ir
embora. Não existe nada entre nós.
O rapaz ficou em silêncio,
não havia mais nada a ser dito.
- Escute Diego, Não leve a
mal. Mas você vai encontrar a pessoa certa. A gente se vê.
Foram as ultimas palavras da
garota antes de sair.
E o rapaz ficou sozinho no
quarto.
O vazio tomou conta do
ambiente, Diego ficou observando, um curativo em seu braço. A faixa apresentava
uma pequena mancha de sangue.
-
Entre. Eu sei que você esta me esperando.
Um outro rapaz vestido de
branco entrou na sala, saído da escuridão,
sentou ao lado do rapaz de alma torturada. E ai foi divertido? – perguntou ele.
-
Não aconteceu como deveria. – respondeu Diego.
-
Oras, mas ela estava aqui. Vocês transaram a noite toda. Um corpo só.
Ela tocou as estrelas e essas coisas todas...
-
Você me enganou. Éfreihn. – Como todo demônio, você me enganou.
O demônio fez esforço para
compreender, havia cumprido o trato passo a passo.
-
Lhe dei tudo que você me pediu.- respondeu o demônio, fitando o rapaz
nos olhos.
-
Me enganou. E ainda assim provou meu sangue.
O demônio deu a volta na
sala, apreciou o sol pela janela da sala. tocou a ponta de uma das flores secas
do vaso e está se regenerou. Não entendia como alguém podia ficar trancado em
casa com um dia tão bonito lá fora.
-
Até os demônios tem suas leis. Você sabe que eu não posso tocar nos
humanos sem permissão.
-
Éfreihn. Você já sabia que isso ia acontecer. Ela foi embora. Não
adiantou nada.- Disse o rapaz.
O demônio mostrou-se
levemente decepcionado.
Vocês dormiram juntos, não
era isso que você queria?
-
Não Éfreihn, você não entendeu. Eu queria que ela me amasse.
O demônio baixou a cabeça,
meditou por alguns momentos. Por um instante cessou o vento dentro da sala.
-
Amor. – Sorriu Éfreihn - Você está confundindo as coisas Diego, se
queria amor, pediu ajuda para a entidade errada.
O vento voltou a circular. O
demônio saiu da frente dos raios de sol e desapareceu na escuridão.

Esse é o melhor! :)
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