Era chegada
a ultima semana do outono, um vento frio murmurava uma antiga canção entre as
folhas das arvores. As noites chegavam mais cedo, com a escuridão, os
camponeses daquele pequeno vilarejo evitavam andar sozinhos ao final da tarde.
Haviam
vários rumores e superstições que rondavam aquelas pessoas, quanto mais
especulavam sobre fatos supostamente ocorridos, mais se distanciavam da
realidade.
Quando os
corpos de dois camponeses foram encontrados degolados no meio de uma plantação,
e o sangue misturou-se a terra junto das sementes, a inquietude se instaurou, e
logo foi encontrado um responsável que explicasse de forma racional o motivo
daquele crime. Alguém que tivesse a
própria existência envolvida em mistério.
Para muitos
a principal suspeita era uma jovem mulher
que morava solitária na casa próxima ao rio, que venerava o sol e conversava
com as plantas. Era um detentora de saberes proibidos. Por muitos chamada de
bruxa.
Esta moça
misteriosa tinha um problema mais urgente para resolver naquela noite. Matar a
própria fome.
A água no caldeirão refletia turva o rosto de
traços delicados de Cris, a garota
emergiu um a um os vegetais, molhando a ponta dos dedos. O fogo pôr momentos
parecia atraído pôr sua pele. Cantava uma melodia ainda mais antiga que a
canção do vento.
Cris
estava cansada, havia trabalhado o dia inteiro. Aquela seria a sua primeira
refeição do dia. Tampou o caldeirão com
cuidado. Seus movimentos eram acompanhados minuciosamente pôr um gato que
estava em cima da mesa.
Devo ter alguma receita que combina com gato em algum
lugar. Disse ela brincando.
Houve um
movimento forçando a abertura da porta. O barulho assustou o felino, que deu um salto e subiu as escadas
de madeira que davam para o dormitório na parte superior da casa.
Um homem
alto adentrou a sala, vestia uma capa de pele característica de um caçador.
Trazia consigo um coelho selvagem abatido, o animal foi posto sobre a mesa.
-
Pensei que você não viesse mais. – Disse a garota.
-
Sempre cumpro minhas promessas. – disse o homem
sentando-se. – O povo la fora parece agitado, é estranho não terem entrado
aqui.
-
Eles tem medo de mim. - Justificou Cris. – Temem o que
não conhecem.
Você guardou minhas coisas? – Perguntou o
homem.
-
estão bem escondidas...- Respondeu a moça.
A garota
subia as escadas e foi até o quarto, momentos depois retornou com uma mochila
feita de pele de carneiro em uma das mãos, e uma espada na outra apoiada no
ombro. O homem pegou as coisas com
cuidado.
Cris
aproximou-se, o homem segurou em suas cintura, a garota tocou-lhe o rosto, o
longo cabelo do homem encobria uma cicatriz. “lembrança de guerra” disse ele
anteriormente. Ela inclinou-se e os dois se beijaram.
O gato
observava a movimentação de longe, de olho na carne do coelho exposta.
Ao final do
beijo, ainda com os lábios úmidos, o homem apertou uma das fivelas do vestido da garota, na
altura do ombro.
-
Não fica bem para uma garota sair a noite por ai assim.
Cris sorriu.
Por um momento não parecia correr risco de morte.
-
Será que conseguiremos ir embora sem problemas? –
Perguntou ela.
-
Se alguém tentar intervir, terá que prestar contas ao
aço da minha espada.- Disse ele, exibindo a arma, o artefato era pesado e largo, trazia escritas
estrangeiras marcadas a fogo em sua bainha, seu metal polido reluzia à luz de
velas.
Como
conseguiu está espada?
-
Tomei de um viajante, disse ele. Mas foi numa disputa
limpa. – Justificou ele sorrindo.
-
Os camponeses não viram você chegar aqui?
-
Sou uma pessoa furtiva Cris. Um ladrão
profissional. Sou uma criatura das sombras.
Ninguém pode perceber minha presença a
não ser se eu queira...
-
Os homem sempre são mais confiantes quando estão com
uma espada na mão...- disse ela. O rapaz sorriu guardando novamente a espada na
bainha. Por um momento sentiu-se tonto e apoiou-se na mesa.
-
Você sabe o que dizem por ai Aijin? É assim que você se
chama não?
O rapaz
mostrou-se surpreso. Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome. Sentiu
suas veias repuxarem, espalmando a mão sobre a mesa.
Dizem que
sou um bruxa, que fiz um pacto com o mal...que posso jogar pragas sobre as
pessoas...
- você
acredita mesmo que alguém pode voar ou invocar dragões?- Perguntou ela. –
Talvez uma bruxa esteja mais interessada em obter conhecimento, e que possa
traduzir escrituras antigas, ou estrangeiras, como a da sua espada...
O homem
estirou o braço tentando agarra-la . A garota deu um passo para trás, fitando-o
nos olhos. O sabor do veneno subiu-lhe a garganta.
-
Os moradores desta vila são ingênuos, como eles podem
achar que uma garota pequena como eu teria forças para sobrepujar dois
camponeses empunhando enxadas? Talvez eles não entendam que eu sou apenas uma
amante da quiromancia, e que fabrico
medicamentos, e não poções diabólicas... Teria que ser alguém forte, alguém
com treinamento militar não é verdade Aijin?
A visão do homem escureceu, ele curvou as
pernas num ultimo esforço, caindo no
chão lentamente , com a cara no assoalho.
-
as pessoas estão tão preocupadas com a magia negra, que
não percebem que os dois irmãos mortos eram donos de terras produtivas, e que
agora, a pessoa mais beneficiada, será o homem que se casar o a irmã mais nova
deles...
Calculo que
você deve ter investido seus olhares sedutores para a garota, não Aijin?
O homem nada
respondeu. Já estava morto, antes do final da ultima frase.
A
garota foi embora do vilarejo com os
primeiros raios de sol. Ninguém interviu.
Aijin,
havia prometido entregar seu corpo para os camponeses. Virando o herói local,
seria fácil desposar quem ele quisesse. Mas sua morte mudou tudo, ninguém
estava disposto a enfrentar a bruxa que
venceu o guerreiro.
Fim (Edson
F. emodem@ig.com.br. julho de 2006.

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