segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O ULTIMO BEIJO







Era chegada a ultima semana do outono, um vento frio murmurava uma antiga canção entre as folhas das arvores. As noites chegavam mais cedo, com a escuridão, os camponeses daquele pequeno vilarejo evitavam andar sozinhos ao final da tarde.
Haviam vários rumores e superstições que rondavam aquelas pessoas, quanto mais especulavam sobre fatos supostamente ocorridos, mais se distanciavam da realidade.
Quando os corpos de dois camponeses foram encontrados degolados no meio de uma plantação, e o sangue misturou-se a terra junto das sementes, a inquietude se instaurou, e logo foi encontrado um responsável que explicasse de forma racional o motivo daquele  crime. Alguém que tivesse a própria existência envolvida em mistério.
Para muitos a principal suspeita era uma jovem mulher que morava solitária na casa próxima ao rio, que venerava o sol e conversava com as plantas. Era um detentora de saberes proibidos. Por muitos chamada de bruxa.
Esta moça misteriosa tinha um problema mais urgente para resolver naquela noite. Matar a própria fome.
 A água no caldeirão refletia turva o rosto de traços delicados de Cris,  a garota emergiu um a um os vegetais, molhando a ponta dos dedos. O fogo pôr momentos parecia atraído pôr sua pele. Cantava uma melodia ainda mais antiga que a canção do vento.
            Cris estava cansada, havia trabalhado o dia inteiro. Aquela seria a sua primeira refeição do dia.  Tampou o caldeirão com cuidado. Seus movimentos eram acompanhados minuciosamente pôr um gato que estava em cima da mesa.
            Devo ter alguma receita que combina com gato em algum lugar. Disse ela brincando. 
Houve um movimento forçando a abertura da porta. O barulho assustou o  felino, que deu um salto e subiu as escadas de madeira que davam para o dormitório na parte superior da casa.
Um homem alto adentrou a sala, vestia uma capa de pele característica de um caçador. Trazia consigo um coelho selvagem abatido, o animal foi posto sobre a mesa.
-          Pensei que você não viesse mais. – Disse a garota.
-          Sempre cumpro minhas promessas. – disse o homem sentando-se. – O povo la fora parece agitado, é estranho não terem entrado aqui.
-          Eles tem medo de mim. - Justificou Cris. – Temem o que não conhecem.
 Você guardou minhas coisas? – Perguntou o homem.
-          estão bem escondidas...- Respondeu a moça.
A garota subia as escadas e foi até o quarto, momentos depois retornou com uma mochila feita de pele de carneiro em uma das mãos, e uma espada na outra apoiada no ombro.  O homem pegou as coisas com cuidado.
Cris aproximou-se, o homem segurou em suas cintura, a garota tocou-lhe o rosto, o longo cabelo do homem encobria uma cicatriz. “lembrança de guerra” disse ele anteriormente. Ela inclinou-se e os dois se beijaram.
O gato observava a movimentação de longe, de olho na carne do coelho exposta.
Ao final do beijo, ainda com os lábios úmidos, o homem apertou  uma das fivelas do vestido da garota, na altura do ombro.
-          Não fica bem para uma garota sair a noite por ai assim.
Cris sorriu. Por um momento não parecia correr risco de morte.
-          Será que conseguiremos ir embora sem problemas? – Perguntou ela.
-          Se alguém tentar intervir, terá que prestar contas ao aço da minha espada.- Disse ele, exibindo a arma, o  artefato era pesado e largo, trazia escritas estrangeiras marcadas a fogo em sua bainha, seu metal polido reluzia à luz de velas.
Como conseguiu está espada?
-                     Tomei de um viajante, disse ele. Mas foi numa disputa limpa. – Justificou ele sorrindo.
-          Os camponeses não viram você chegar aqui?
-                     Sou uma pessoa furtiva Cris. Um ladrão profissional.  Sou uma criatura das sombras. Ninguém  pode perceber minha presença a não ser se eu queira...
-          Os homem sempre são mais confiantes quando estão com uma espada na mão...- disse ela. O rapaz sorriu guardando novamente a espada na bainha. Por um momento sentiu-se tonto e apoiou-se na mesa.
-          Você sabe o que dizem por ai Aijin? É assim que você se chama não?
O rapaz mostrou-se surpreso. Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome. Sentiu suas veias repuxarem, espalmando a mão sobre a mesa.
Dizem que sou um bruxa, que fiz um pacto com o mal...que posso jogar pragas sobre as pessoas...
- você acredita mesmo que alguém pode voar ou invocar dragões?- Perguntou ela. – Talvez uma bruxa esteja mais interessada em obter conhecimento, e que possa traduzir escrituras antigas, ou estrangeiras, como a da sua espada...
O homem estirou o braço tentando agarra-la . A garota deu um passo para trás, fitando-o nos olhos. O sabor do veneno subiu-lhe a garganta.
-                     Os moradores desta vila são ingênuos, como eles podem achar que uma garota pequena como eu teria forças para sobrepujar dois camponeses empunhando enxadas? Talvez eles não entendam que eu sou apenas uma amante da quiromancia, e que fabrico  medicamentos, e não poções diabólicas... Teria que ser alguém forte, alguém com treinamento militar não é verdade Aijin?
 A visão do homem escureceu, ele curvou as pernas num ultimo esforço,  caindo no chão lentamente , com a cara no assoalho.
-          as pessoas estão tão preocupadas com a magia negra, que não percebem que os dois irmãos mortos eram donos de terras produtivas, e que agora, a pessoa mais beneficiada, será o homem que se casar o a irmã mais nova deles...
Calculo que você deve ter investido seus olhares sedutores para a garota, não Aijin?
O homem nada respondeu. Já estava morto, antes do final da ultima frase.
A garota  foi embora do vilarejo com os primeiros raios de sol. Ninguém interviu.
Aijin, havia prometido entregar seu corpo para os camponeses. Virando o herói local, seria fácil desposar quem ele quisesse. Mas sua morte mudou tudo, ninguém estava disposto a enfrentar  a bruxa que venceu o guerreiro.



Fim                                                      (Edson F. emodem@ig.com.br. julho de 2006.



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