SINCRONIA. (07/2014)
Katia entrou na cozinha e um sinal luminoso no pequeno monitor da geladeira avisava que havia um recado de voz, digitou um código e começou a ouvir a mensagem. Enquanto isso, aos seus pés, Seu gato aguardava impaciente que ela colocasse ração no pote. Sua irmã havia recebido uma ligação de seu filho dizendo que não voltaria para casa naquele final de semana. Ele e o ex marido de Katia haviam programado uma viajem para acampar numa reserva florestal no interior.
Desde os últimos acontecimentos que levaram a separação, a relação entre Katia e seu filho Erick estava cada vez mais rasa. Nos dias em que o garoto ficava em sua casa, os dois pouco conversavam. Era como se fossem estranhos. Na ultima vez em que seu filho se despediu, quando juntou suas roupas e foi passar as férias com o pai, nem a beijou, apenas ficou ao seu lado e passou a mão em seu ombro. Era esse beijo que lhe fazia mais falta.
Toda a comida que Katia havia comprado para o final de semana estava entulhada na geladeira, aguardando a volta de Erick, fatalmente seria jogada toda no lixo. Bem diferente da época em que Érick morava com ela e seu melhor amigo Marcio freqüentava a casa.
Katia sentia muita falta de Márcio. E sempre imaginava se ele estava bem, eles foram separados sem poder se despedir. Foi impossível explicar para seu marido sua relação com aquele garoto que tinha metade da sua idade e ele foi embora, e levou Erick consigo. Ela agora estava só e nenhum dos homens da sua vida estavam lá para lhe fazer companhia.
Havia um grande espelho na sala ao lado do sofá de frente para o corredor, segundo sua irmã, decorada de interiores e assinante do projeto da casa, servia para ampliar a noção de espaço.
Aproximou-se do espelho e observou o reflexo da casa vazia. “ Que lugar era aquele? Tão igual e tão invertido? Quem seriam as pessoas que andariam pelo espelho? Talvez fossem iguais a nós, talvez também se sentissem sozinhas como ela agora.
Katia olhou seus cabelos castanhos longos por alguns momentos. Eram mais longos e mais claros quando o acontecimento mais estranho da sua vida se sucedeu. Por um instante Kátia se viu adolescente, perdida correndo num mundo vazio, que bem poderia ser aquele do espelho. Éla só não entendia como pode estar lá.
Do lado de fora , um carro oficial do INPE, o Instituto de Pesquisas Espaciais, parou próximo a calçada estacionando junto a duas longas latas de lixo. Dois técnicos saíram primeiro do automóvel e trataram de instalar um pequeno equipamento junto ao meio -fio, com sua base num tripé de alumínio e pequenas antenas que foram fixadas na lateral do carro. Parecia os equipamentos de um radar móvel, mas a julgar pela quantidade de dados que surgia na tela de um notebook, aquela maquina fornecia leituras muito mais complexas. O terceiro homem que saiu do carro não utilizava o jaleco característico dos técnicos. Trajava um terno escuro e trazia no peito um crachá do CCDE, o Centro de Controle de Dados Estratégicos. O homem colou alguns documentos numa pasta junto ao seu notebook pessoal, se dirigiu até a porta da casa e tocou a campainha.
A mulher de cabelos castanhos olhou pela janela e estranhou a presença do carro do INPE, mas abriu a porta.
- Melhor vocês do que os oficiais de justiça... - disse ela para o homem que sorria.
- Kátia Andreotti Gomes? - Perguntou o rapaz, conferindo o nome na etiqueta de um envelope.
- Apenas Katia Andreotti, Gomes era o sobrenome do meu marido... - disse ela. - Agora eu estou separada... o que um funcionário do INPE quer no meu bairro?
O homem de terno sorriu.
- Não sou exatamente do INPE, embora tenha vindo no carro deles... Mas tenho informações que podem ser interessantes para a senhora.
- Sobre o que? Perguntou ela temerosa. - Vai cair algum satélite por aqui?
- Não que eu saiba. Respondeu o homem. Vim falar sobre eventos estranhos que aconteceram 18 anos atrás.
Kátia, ficou séria. Seu olhar transmitiu uma certa indignação. A dezoito anos atrás, quando ela era adolescente, chegou a falar com outros profissionais do INPE, mas eles em nada puderam ajudar. Na época fizeram descaso ao que ela tinha a falar. Muitos riram e chegaram a supor que ela tinha problemas psiquiátricos.
Katia relatou que havia sumido por vários dias, trasportada para um mundo de fantasia, que era idêntico a esse mas onde não havia ninguém. Apenas um dos técnicos se interessou pela história e acabou registrando seu depoimento, talvez porque tenha achado curioso e fantasioso demais. Mas aquilo agora era passado.
A mulher abriu a porta e fez sinal para que o agente entrasse. O homem sentou na sala e colocou seu notebook na mesa. Entregou um envelope para ela onde constava um relatorio em seu nome.
- Meu nome é Robério. Disse ele mostrando o crachá. Como a senhora pode ver, não trabalho diretamente para o instituto.
- Nunca ouvi falar sobre esse CCDE. O que vocês fazem?
- Somos um braço do Serviço nacional de informação do governo federal.
- Eu pensei que o SNI não existia mais... Disse Kátia.
- Técnicamente não. - Somos um braço que controla informações sobre novas tecnologias.
Katia recolheu as costas no encosto do sofá, o gato correu e pulou em seu colo. Cheirava a ração enlatada. Robério continuou.
- Recentemente estava catalogando os arquivos antigos do INPE e encontrei seu relatorio. Aqui diz que a senhora ficou duas semanas desaparecida...
É. Os meus pais ainda acreditam que eu fugi de casa.- Disse a mulher em tom irônico.
- A policia também acredita o mesmo. Tive acesso ao boletim de ocorrência. Eles te procuraram por toda a região e você não estava em lugar nenhum.
Katia olhou para o espelho no fundo sala por alguns momentos, ao lado no sofá, próximo as cortinas, o gato cinzento dormia tranqüilo. A mulher voltou sua atenção para o agente do CCDE.
- Você disse que tinha algo pra me dizer... - Comentou ela, levantando-se e indo e direção a cafeteira. Café naquele momento era uma benção.
Robério checou seus arquivos no note e virou o monitor para Kátia, nele havia um pequeno video sobre uma das atividades do Instituto de pequisas espaciais. Nele os técnicos vestidos em macacões brancos, montavam um complicado aparelho a uma turbina de avião.
- O que vou mostrar para você é confidencial, disse Robério. Esses técnicos trabalham no desenvolvimento de um novo tipo de gerador de energia, baseado na vibração elétrica dos elementos.
- Não faço idéia do que você está falando... - Disse Kátia no momento em que a cafeteira apitou avisando que estava pronto o café. A mulher levantou-se e foi buscar as chicaras no armário, mesmo estando de costas, o agente continuou falando pois sabia que ela embora não demostrasse, estava prestando atenção.
- Alguns relógios funcionam apenas com uma gota de mercúrio, é a vibração certeira desse elemento que faz o mecanismo do relógio funcionar. O gerador funciona com o mesmo principio. Mas nesse caso, ampliaram artificialmente a vibração de elementos específicos para que pudesse impulsionar o motor.
A mulher voltou com o café em silêncio, serviu o homem e sentou no sofá puxando o note para mais perto.
- Quando foram feitos esses testes? - perguntou ela.
- No inicio do verão passado. Há um ano atrás.
- E o que isso tem haver comigo?
- Acreditamos que a maquina tenha atingido você... - Respondeu o homem.
Katia sorveu o café. O gosto espalhou por sua boca e ela se lembrou de Marcio, ele adorava tomar café com achocolatado. Na primeira noite em que dormiram juntos, haviam prometido nunca mais se afastarem um do outro. Naquela noite fez muito frio, e ela imaginou que estavam sozinhos no mundo. Poderia gritar, mas ninguém iria escutar. Isso lhe causou uma enorme angustia. Se Marcio não estivesse lá ao seu lado, fatalmente teria ficado louca. Mas de nada adiantou, as circunstancias os afastaram mesmo assim. Katia olhou mais um momento o vídeo que chegava ao seu fim, e voltou a questionar o agente.
- Ok. Agora me diga, o que o testes que ocorreram o ano passado tem haver com o incidente, que aconteceu quando eu era adolescente?
- Houve uma ocorrência não prevista durante os testes... algo que os engenheiros não puderam calcular. A maquina emitiu um pulso que resultou num campo fora de sincronia com a nossa realidade.
Katia colocou a chicara na mesa atônita.
- Estou imaginando oque vem agora... disse ela, irônica.
- Segundo os nossos teóricos, esse campo não respeitava os limites da física e também não respeitou os limites do tempo. Foi emitido em 2014. Mas atingiu você em 1998, levando junto o garoto. Pelos nosso cálculos, ele atingiu a sua casa, mesmo local onde o garoto foi morar anos depois.
- E você tem idéia de pra onde essa brecha nos enviou? O lugar onde eu passei duas semana da minha vida e que quase me deixou louca?
- Alguns teóricos calculam que vocês estava aqui o tempo todo, mas fora de sincronia com o resto das pessoas. Vocês viveram um momento de descompasso no tempo...
Houve um momento de silêncio, Katia olhou o homem nos olhos por alguns momentos, não compreendia o evento que Robério relatara, mas sabia do que ele estava falando.
- Eu pensei que essas coisas matavam as pessoas...- comentou ela. - O que teria acontecido se o pulso fosse mais forte?
Robério não respondeu. Levantou-se do sofá, caminhou até a janela para ver como caminhavam as medições executadas pelos técnicos do INPE, quando puxou a cortina, assustou o gato que deu um salto sobre o carpete, indo para no colo de sua dona.
- Você com certeza conhece a história do Magico de OZ, e é claro, Alice no Pais dos Maravilhas... a primeira corria por uma tempestade elétrica quando de repente desapareceu. A segunda passou por um buraco, que poderia ser um vortex... Digamos que você é a nossa Alice dos tempos modernos. Se a carga fosse um pouco mais forte, teria lhe atirado em outro universo.
- Isso explica muito coisa. - continuou a mulher de cabelos castanhos. - Mas não resolve meus problemas.
- Eu compreendo. - Respondeu o técnico. Mas me diga, como você conheceu o garoto?
Marcia olhou para o chão e deu um suspiro, nunca havia contado aquela história pra ninguém, e mal sabia como começar. Algumas pessoas achavam que ele era louca, se soubessem daquilo, teriam certeza.
- Houve a a primeira vez e a segunda vez. Na primeira em 1998 eu estava tentando criar um blog na internet, quando ouvi um zumbido estranho no meu quarto e de repente a conexão caiu. Mas na época das ligações discadas isso era muito comum.
- Interessante. Disse Robério. - você lembra de ter acontecido algo anormal com o computador, algum funcionamento incorreto durante o acontecimento?
- Lembro sim, vários dados sem sentido surgiram na tela do computador, um emaranhado de números desordenados.
- Fantástico! - Deixou escapar o agente do CCDE. - Uma emissão maciça de dados pelo pulso que atravessou mais de uma década! Precisamos pesquisar isso! Mas por favor, continue...
- Não vou lhe dizer que percebi de imediato a transição. Mas de repente senti que as coisas estavam diferentes. Um silêncio estarrecedor tomou conta de tudo, como se alguém desligasse a tomada do mundo... Sai do meu quarto e a sala estava vazia, toda minha família havia sumido. Já ouviu falar em arrebatamento?
- Claro. O termo bíblico que se refere a um desaparecimento maciço de pessoas, que seriam convocadas para o céu.
- Foi mais ou menos isso que eu imaginei quando percebi que estava sozinha. - continuou Katia .- Eu andei pela rua e o mundo estava parado. Tempos depois encontrei Márcio que também estava vagando por ai. Foi a primeira vez que nos vimos.
- Interessante. Como vocês dois tinham a mesma idade na época... perdão, como vocês dois tinham a mesma idade naquele espaço temporal, é natural que tenha acontecido um contato amoroso...
Katia suspirou novamente.
- Eu não tinha como saber que ele havia sido deslocado do futuro, andávamos juntos de dia procurando outros “sobreviventes”, pois achávamos que todas as pessoas tinham desaparecido. . Acabamos nos fixando num hipermercado, pois tínhamos garantia de comida farta. Dormíamos na sessão de móveis.
Roberio olhou novamente o relátorio e continuou.
- Bom, isso explica porque a senhora foi encontrada dormindo num sofá no Wall Mart, alguns dias depois de ter sumido de casa...
- Foi. E quando acordei, Márcio não estava mais lá. Fiquei achando que ele era uma alucinação, ou que na verdade pertencia aquele imenso lugar sem gente que eu visitei. Até que 17 anos depois, meu filho voltou do colégio e trouxe um amigo...
- Compreendo. Essa foi a segunda vez que você foi apresentada a ele, deve ter sido um choque perceber que o garoto dos seu sonho realmente existia...
- Nos reconhecemos no momento em que ele colocou os pés nessa sala, fazia apenas algumas semanas em que ele tinha sumido e me encontrado...
O celular do Técnico do CCDE tocou, ele conferiu rapidamente o numero e desligou o aparelho. Aproveitou para anotar alguns dados rapidamente no notebook. Katia continuou.
- Pobre Marcio. Os pais dele acham que ele é um garoto problema. Primeiro fugiu de casa, depois se envolveu com uma mulher muito mais velha. Agora foram morar em outra cidade e o juiz disse que eu não posso mais vê-lo.
- É sobre isso que vim lhe falar. ..- Disse o homem.- Nós podemos cancelar o processo de assédio, caso você aceite colaborar com as pesquisas no instituto.
Katia riu alto.
- - Eu trabalhando no INPE?
- Você foi a única pessoa, tirando o garoto, que vivenciou o evento de ruptura. - Respondeu ele. Se você pudesse vir comigo agora, os técnicos tem muitas perguntas a fazer...
- Só vou se puder levar meu gato. Não vou deixar ele sozinho...
O homem do CCDE pensou por alguns instantes, coçou a cabeça imaginando as conseqüências mas depois concordou a presença do bichano. Kátia recolheu o gato numa caixa de trasnsporte, vestiu um agasalho e pegou as chaves da casa que estavam sobre a mesa de centro. Robério ligou no celular para seu superior e avisou que a garota estava voltando com ele.
Katia trancou a porta girando a chave duas vezes como sempre fazia, quando puxou a chave uma duvida lhe veio a cabeça.
- Vocês estão pensando em gerar a fenda de novo, não é?
Robério guardou o celular e olhou fixo no olhos dela.
- Na verdade nós já fizemos, é por isso que precisamos de você...
Katia entrou no carro do INPE, os técnicos desmontaram seus equipamentos e todos foram embora.
Naquele momento em um outro lugar, outra pessoa corria sozinha, perdida num intervalo de tempo.
eDSON CODENIS (07/2014)
Fim
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