Sentado próximo a lareira, Henrique buscava conforto
na madeira que queimava lentamente, mas o calor parecia não alcançar sua pele,
era como estar morto. Nos sonhos, quando se toma uma taça de vinho, esta não
tem nenhum sabor. Porque será então que os beijos são tão calorosos? Você pode
acordar no outro dia e relembrar da
sensação do toque. E está sensação pode ser tão intensa que ira lhe perseguir o
dia todo. O beijo de Aline ainda estava em sua mente, e se fazia presente a
cada segundo. Exatamente igual ao dos sonhos.
Henrique tentou alcançar a garrafa de vinho ao seu
lado, esbarrou a mão na taça que rolou pelo carpete, percebeu então que estava
bêbado e era a hora de parar.
Do lado de fora a tempestade dava sinais de que iria
ceder, perdera sua força, e seu grito dava lugar ao murmúrio do vento.
Alex entrou na sala correndo, suas roupas estavam
encharcadas, parou ofegante próximo a Henrique, trazia em sua face um tormento
indescritível.
-
Deu tudo errado Henrique ! Tudo errado!
Henrique
pediu a Alex que se acalmasse. Mas ele ameaçou sair correndo.
- Você
precisa ir comigo até o lago , agora!
-
Acalme-se , e me diga o que aconteceu.
O rapaz,
perturbado, sentou-se por alguns instantes em outra poltrona. Mas logo estava
em pé novamente dando voltas pela sala.
-
Isso não pode estar acontecendo... – Disse ele
esfregando a própria nuca.
-
Respire fundo e me conte desde do inicio. – Pediu
Henrique, flertando com a garrafa de vinho.
-
Aline está morta Henrique ! Morta! – Você entende o que
isso quer dizer? – Gritou o rapaz segurando o amigo pelos colarinhos. – Parecia
tudo perfeito, estávamos os dois no barco, já havíamos conversado sobre um
monte de coisas...
-
Continue... – Pediu Henrique , alcançando a taça de
vinho.
-
A gente teve uma discussão. O barco acabou virando...
Eu tentei socorre- lá , eu juro!
Henrique
encheu novamente a taça, apreciou a garrafa por alguns instantes. Aquela era a
ultima, pensou. Ao seu lado sentado na poltrona próxima a janela, Alex chorava
convulsivamente.
-
O que vai ser de mim o que nós vamos dizer quando
voltarmos?- Perguntou Alex, com as palavras cheia de dor.
-
Sobre o que vocês discutiram? – Quis saber o outro.
-
Eu pensei que estava bem entre nós, que nós iríamos
ficar juntos. Mas Aline estava mudada. Disse que não tinha mais certeza. Eu
tentei beija-la...
-
Ela se negou e você tentou agarra-la a força. -
Completou Henrique.
-
Foi. Nós perdemos o equilíbrio e o barco virou.
-
Onde esta Aline agora? - Perguntou Henrique.
-
Na areia. – Revelou Alex. – Você precisa ir vê-la.
Henrique
concordou, os dois saíram da cabana. A
chuva já havia parado. Apenas um leve chuvisco caia naqueles rapazes.
Alex
corria desorientado. Henrique o seguia com a garrafa de vinho.
-
Onde está o Suzuki ? – Perguntou Alex.
-
Atolado. – Respondeu Henrique apontando. - Nós deixamos o carro em um local que inundou.
Os dois chegaram a beira do lago. Henrique tomou o último gole de vinho e jogou
a garrafa longe. Alex andou de um lado para o outro. Procurou , mas não
encontrou:
- Eu deixei ela aqui. Tenho certeza.
-
Eu sei. – Disse Henrique.
-
O que será que aconteceu com o corpo dela?
Henrique
caminhou até a árvore onde os dois haviam montado a barraca, tinham a idéia de
passar as noites próximo ao lago. Simulariam um “luau”. Com a chegada da
tempestade tiveram que desistir e ficar na cabana. Ainda havia um resto de
fogueira e flores que Aline havia colhido para enfeitar o acampamento.
-
Aline esta aqui.
Apontou Henrique pára a um saco de dormir .
-
Como, se eu a deixei na beira do lago a poucos
momentos?
Henrique abriu
o saco de dormir , o corpo de Aline descansava sem vida. Era como se estivesse
adormecida. Mas já estava morta a dias.
- Eu a
trouxe pra cá. – Revelou Henrique. – Coloquei alguns cubos de gelo para
preservar o corpo, acho que deu algum resultado.
-
Mas como, não houve tempo! – Protestou Alex. –
repetindo o gesto de esfregar a cabeça.
-
Na verdade houve tempo de sobra. – contou Henrique -
Alex, o acidente que você me conto aconteceu a uma semana. Você
realmente tentou salvar Aline, mas já era tarde de mais. Decidimos coloca-la no
saco de dormir. Teríamos ido embora se não fosse a tempestade. Você não lembra
? Nós tentamos desatolar o Suziki da lama.
Henrique
fechou novamente o saco de dormir. Lembrou por um instante o beijo de Aline. E
que sua voz ficava rouca nos dias frios. Ao seu lado Alex apenas observava.
-
O que aconteceu depois ? perguntou.
-
Você se desesperou. Machucou o braço em nossa tentativa
de colocar o carro na estrada. Então você foi embora. Fugiu. Disse que não
agüentaria ficar aqui com Aline morta.
-
Mas o que aconteceu comigo? Porque eu não me lembro ?
-
Essa é a parte pior Alex. A chuva aumentou quando você
foi embora. Eu não entendi quando você retornou no dia seguinte desesperado
dizendo que Aline precisava de ajuda. Eu acompanhei você até a praia e você
desapareceu.
-
Não entendo. – Disse Alex com a voz miúda.
-
No outra dia fui até a estrada pedir ajuda , uma parte
do asfalto havia deslizado. Foi lá que eu encontrei seu corpo.
-
Meu corpo?
-
Isso mesmo. Você morreu um dia depois de Aline. Mas por
alguma razão não consegue se lembrar.
Esta já é a quinta vez que você volta
para a cabana. Quando descobri que estava morto fiquei aterrorizado. Naquela
noite você retornou. .Me tranquei no quarto enquanto ouvia seus gritando na
sala. Achei que havia voltado para me atormentar.
Henrique
Lamentou não ter trazido mais uma garrafa de vinho. Alex não parecia mais
desesperado e relembrava aos poucos os fatos ocorridos depois do acidente do
barco, enquanto Henrique continuava a explicar:
-
Então você volto de novo e de novo. Na terceira vez
fiquei te observando pela porta. E ontem decidi conversar. Presumi que a única
forma de fazer com que entendesse fosse
trazendo-o aqui.
-
Onde está meu corpo agora ? – Perguntou Alex se
tocando.
-
Enrolado em uma lona perto da estrada. Não consegui
traze-lo.
Alex parecia conformado. Talvez não houvesse mais
lugar para ele no mundo sem Aline. Quem sabe se sobrevivesse, acabaria se
matando.
A sensação da
lama fria cobrindo seu corpo, a asfixia e finalmente a paz. “Realmente estou
morto”, pensou ele.
Henrique observou Alex por um momento, tinha o
desejo quase cientifico de vê-lo desaparecer.
-
O que será de mim agora?- Pergunto Alex. – Será que esquecerei de tudo,
e retornarei dia após dias para assombrar a casa?
-
Sinceramente não sei. – disse Henrique. - Não estarei
aqui para saber. A chuva já parou e amanhã a lama estará seca o bastante para
que eu coloque o Suzuki na estrada.
Não existem palavras para
consolar um morto. Pensou Henrique, lhe ocorreu que um dia poderia também
receber uma visita de Aline.
Alex foi embora sem se
despedir, andou em direção ao lago e desapareceu na escuridão.
Fim
Escrito por Edson F. em
março de 2004 .( contato: emodem@ig.com.br).

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