segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Depois da Tempestade









Sentado próximo a lareira, Henrique buscava conforto na madeira que queimava lentamente, mas o calor parecia não alcançar sua pele, era como estar morto. Nos sonhos, quando se toma uma taça de vinho, esta não tem nenhum sabor. Porque será então que os beijos são tão calorosos? Você pode acordar no outro  dia e relembrar da sensação do toque. E está sensação pode ser tão intensa que ira lhe perseguir o dia todo. O beijo de Aline ainda estava em sua mente, e se fazia presente a cada segundo. Exatamente igual ao dos sonhos.
Henrique tentou alcançar a garrafa de vinho ao seu lado, esbarrou a mão na taça que rolou pelo carpete, percebeu então que estava bêbado e era a hora de parar.
Do lado de fora a tempestade dava sinais de que iria ceder, perdera sua força, e seu grito dava lugar ao murmúrio do vento.
Alex entrou na sala correndo, suas roupas estavam encharcadas, parou ofegante próximo a Henrique, trazia em sua face um tormento indescritível.
-          Deu tudo errado Henrique ! Tudo errado!
Henrique pediu a Alex que se acalmasse. Mas ele ameaçou sair correndo.
- Você precisa ir comigo até o lago , agora!
-          Acalme-se , e me diga o que aconteceu.
O rapaz, perturbado, sentou-se por alguns instantes em outra poltrona. Mas logo estava em pé novamente dando voltas pela sala.
-          Isso não pode estar acontecendo... – Disse ele esfregando a própria nuca.
-          Respire fundo e me conte desde do inicio. – Pediu Henrique, flertando com a garrafa de vinho.
-          Aline está morta Henrique ! Morta! – Você entende o que isso quer dizer? – Gritou o rapaz segurando o amigo pelos colarinhos. – Parecia tudo perfeito, estávamos os dois no barco, já havíamos conversado sobre um monte de coisas...
-          Continue... – Pediu Henrique , alcançando a taça de vinho.
-          A gente teve uma discussão. O barco acabou virando... Eu tentei socorre- lá , eu juro!
Henrique encheu novamente a taça, apreciou a garrafa por alguns instantes. Aquela era a ultima, pensou. Ao seu lado sentado na poltrona próxima a janela, Alex chorava convulsivamente.
-          O que vai ser de mim o que nós vamos dizer quando voltarmos?- Perguntou Alex, com as palavras cheia de dor.
-          Sobre o que vocês discutiram? – Quis saber o outro.
-          Eu pensei que estava bem entre nós, que nós iríamos ficar juntos. Mas Aline estava mudada. Disse que não tinha mais certeza. Eu tentei beija-la...
-          Ela se negou e você tentou agarra-la a força. - Completou Henrique.
-          Foi. Nós perdemos o equilíbrio e o barco virou.
-          Onde esta Aline agora? - Perguntou Henrique.
-          Na areia. – Revelou Alex. – Você precisa ir vê-la.
Henrique concordou,  os dois saíram da cabana. A chuva já havia parado. Apenas um leve chuvisco caia naqueles rapazes.
Alex corria desorientado. Henrique o seguia com a garrafa de vinho.
-          Onde está o Suzuki ? – Perguntou Alex.
-          Atolado. – Respondeu Henrique apontando. -  Nós deixamos o carro em um local que inundou.
Os dois chegaram a beira do lago.  Henrique tomou o último gole de vinho e jogou a garrafa longe. Alex andou de um lado para o outro. Procurou , mas não encontrou:
- Eu deixei ela aqui. Tenho certeza.
-          Eu sei. – Disse Henrique.
-          O que será que aconteceu com o corpo dela?
Henrique caminhou até a árvore onde os dois haviam montado a barraca, tinham a idéia de passar as noites próximo ao lago. Simulariam um “luau”. Com a chegada da tempestade tiveram que desistir e ficar na cabana. Ainda havia um resto de fogueira e flores que Aline havia colhido para enfeitar o acampamento.
-           Aline esta aqui. Apontou Henrique pára a um saco de dormir .
-          Como, se eu a deixei na beira do lago a poucos momentos?
Henrique abriu o saco de dormir , o corpo de Aline descansava sem vida. Era como se estivesse adormecida. Mas já estava morta a dias.
- Eu a trouxe pra cá. – Revelou Henrique. – Coloquei alguns cubos de gelo para preservar o corpo, acho que deu algum resultado.
-          Mas como, não houve tempo! – Protestou Alex. – repetindo o gesto de esfregar a cabeça.  
-          Na verdade houve tempo de sobra. – contou  Henrique -  Alex, o acidente que você me conto aconteceu a uma semana. Você realmente tentou salvar Aline, mas já era tarde de mais. Decidimos coloca-la no saco de dormir. Teríamos ido embora se não fosse a tempestade. Você não lembra ? Nós tentamos desatolar o Suziki da lama.
Henrique fechou novamente o saco de dormir. Lembrou por um instante o beijo de Aline. E que sua voz ficava rouca nos dias frios. Ao seu lado Alex apenas observava.
-          O que aconteceu depois ? perguntou.
-          Você se desesperou. Machucou o braço em nossa tentativa de colocar o carro na estrada. Então você foi embora. Fugiu. Disse que não agüentaria ficar aqui com Aline morta.
-          Mas o que aconteceu comigo? Porque eu não me lembro ?
-          Essa é a parte pior Alex. A chuva aumentou quando você foi embora. Eu não entendi quando você retornou no dia seguinte desesperado dizendo que Aline precisava de ajuda. Eu acompanhei você até a praia e você desapareceu.
-          Não entendo. – Disse Alex com a voz miúda.
-          No outra dia fui até a estrada pedir ajuda , uma parte do asfalto havia deslizado. Foi lá que eu encontrei seu corpo.
-          Meu corpo?
-          Isso mesmo. Você morreu um dia depois de Aline. Mas por alguma  razão não consegue se lembrar. Esta já é a quinta  vez que você volta para a cabana. Quando descobri que estava morto fiquei aterrorizado. Naquela noite você retornou. .Me tranquei no quarto enquanto ouvia seus gritando na sala. Achei que havia voltado para me atormentar.
Henrique Lamentou não ter trazido mais uma garrafa de vinho. Alex não parecia mais desesperado e relembrava aos poucos os fatos ocorridos depois do acidente do barco, enquanto Henrique continuava a explicar:
-          Então você volto de novo e de novo. Na terceira vez fiquei te observando pela porta. E ontem decidi conversar. Presumi que a única forma de fazer com que  entendesse fosse trazendo-o aqui.
-          Onde está meu corpo agora ? – Perguntou Alex se tocando.
-          Enrolado em uma lona perto da estrada. Não consegui traze-lo.
Alex parecia conformado. Talvez não houvesse mais lugar para ele no mundo sem Aline. Quem sabe se sobrevivesse, acabaria se matando.
 A sensação da lama fria cobrindo seu corpo, a asfixia e finalmente a paz. “Realmente estou morto”, pensou ele.
Henrique observou Alex por um momento, tinha o desejo quase cientifico de vê-lo desaparecer.
-          O que será de mim agora?- Pergunto Alex. – Será que esquecerei de tudo, e retornarei dia após dias para assombrar a casa?
-          Sinceramente não sei. – disse Henrique. - Não estarei aqui para saber. A chuva já parou e amanhã a lama estará seca o bastante para que eu coloque o Suzuki na estrada.
Não existem palavras para consolar um morto. Pensou Henrique, lhe ocorreu que um dia poderia também receber uma visita de Aline.
Alex foi embora sem se despedir, andou em direção ao lago e desapareceu na escuridão.


                                         Fim

Escrito por Edson F. em março de 2004 .( contato: emodem@ig.com.br).


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