segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Religado








A garota de cabelos preto azulados desceu a escada lentamente, trazia em suas mãos os registros técnicos projeto a ser desenvolvido naquela semana. No décimo quarto andar do Instituto Bio Humano, ficavam os laboratórios de regeneração.
Próximo ao tanque de contensão, estava Dorian, o supervisor Substituto, que aguardava os registros, enquanto conferia os dados coletados da ultima analise no computador de processo.
Dorian recebeu a pasta com os registros e agradeceu a Anelise sem muito empenho, quando pensou em ser mais incisivo a garota já estava longe. Havia subido a pequena escada metálica para chegar aos medidores nos tubos de alimentação.
- O neuro compositor já está ativo, Dorian. Pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. – Disse a garota.
Dorian sorriu pela brincadeira, mas estava nervoso, a ultima tentativa de regeneração havia falhado em seus momentos finais. Era questão de tempo para que a direção do laboratório questionasse sua capacidade de coordenar projetos de regeneração.
- Comece a essa droga logo de uma vez! – gritou Anelise, abrindo os registros que controlavam a alimentação dos tubos. O grito assustou Gustavo, o técnico de processos que auxiliava Dorian. O supervisor substituto teclou um código no computador e por um instante a sala começou a estremecer. Os nutrientes coloridos passaram a preencher os tubos em direção ao tanque de regeneração.
- Ligue o canhão foto-cromático, você os opera melhor do que eu. Disse Dorian para o amigo. Gustavo conferiu os parâmetros em uma tela vertical secundaria e ativou os projetores de luz.
            Um aviso luminoso surgiu na tela de Dorian, Carga de regeneração em 73%. Lentamente as cadeias de proteínas começaram a formar um grupo de tecidos, numa orientação segmentada em meio ao borbulhar do líquido verde e espesso que preenchia o tanque.
Dorian exibiu um sorriso de satisfação quando viu a silhueta de um corpo humano começar a formar-se no tanque, mas a estrutura se desfez levando consigo o sorriso de Dorian.
            Os tubos de alimentação foram fechados automaticamente pelo sistema de segurança, e um alerta de estado crítico irreversível surgiu na tela do computador de processo.


***




Dorian subiu para o refeitório, sentou-se ao lado de Anelise que almoçava, mas não tirava os olhos de seu Multipad, os cabelos pretos azulados longos encobriam uma parte de seu rosto. Dorian pensou que talvez por alguma razão, os dois poderiam ser mais próximos, só faltava encontrar um bom argumento para dizer a ela.
- Mais um projeto inconcluído. Lamentou o rapaz.
- Você fez o procedimento correto. Ponderou Anelise, sorvendo mais um gole de suco concentrado. - ...Garantiu a integridade da máquina, você não vai conseguir uma promoção para supervisor geral se causar algum dano aos sistemas de refrigeração. Foi um processo cem por cento seguro.
- Anelise voltou a olhar para a base de dados, fez um movimento rápido com os olhos e o Multipad trocou a página.
- talvez seja isso... – Pensou alto Dorian. – Talvez eu esteja cauteloso demais.
O rapaz saiu do refeitório pensando na pilha de relatórios que precisava preencher. O gerador do canhão foto cromático ainda lhe garantia mais um bombardeio para aquele dia, desde que Gustavo revesse os protocolos de segurança. Dorian dobrou o corredor e foi até a sala do amigo.
Quando chegou, o técnico já estava juntando as coisas para ir embora. Dorian entrou na sala sem bater. Gustavo sentiu que daquela atitude não vinha coisa boa.
- Quero que você reveja os processos de segurança.
- Por mim tudo bem - Respondeu Gustavo. – Farei isso na próxima segunda.
- você não esta pensando em ativar o mesmo projeto de novo não é?
- Claro que não... – Mas preciso saber se seria possível.
Gustavo e Dorian voltaram ao laboratório, o técnico foi até seu computador e rodou um diagnóstico acelerado do último processo. Dorian preferiu não informar Anelise que havia retornando ao laboratório, ela certamente desaprovaria.
Dorian conferia o nível dos reservatórios de fluido, quando um dos funcionários da administração entrou no laboratório acompanhado de um militar fardado. Por um instante, Gustavo, o operador do canhão foto cromático achou que os dois seriam presos.
- Esse é o comandante Aziz, veio inspecionar o nosso projeto, disse o funcionário, apresentando o homem.
- Muito prazer senhor Dorian, vim verificar como está o nosso homem. Ele era um membro importante no meu regimento, e preciso assegurar que o seu retorno seja bem sucedido.
- Estamos fazendo os ajustes necessários, mas temos bons prognósticos., senhor comandante.
- você é o supervisor substituto certo?

- Sim. A doutora Carletti é a nossa diretora de desenvolvimento, e responsável pelos projetos.
- Entenda senhor Dorian, a corregedoria do exército está me pressionando por resultados, preciso retornar com algo palpável em mãos. O financiamento do seu laboratório depende disso...
- Entendo... – respondeu Dorian engolindo seco.
- Quando vocês farão o próximo teste? – perguntou ele.
- Estamos terminando os preparativos agora senhor Aziz. O Senhor pode ficar para acompanhar o processo. Disse Anelise, entrando no laboratório.
O sargento, expressou um ar de satisfação diante da presença da linda garota.
Gustavo levou a mão à cabeça preocupado. Sentiu seu emprego em risco, e percebeu estar numa grande enrascada. Dorian gaguejou algo e puxou o amigo para o fundo do laboratório, aproveitando que o militar estava distraído com a presença de Anelise.
- Cara, vai ser muito feio se o sargento presenciar o nosso fracasso... – Advertiu Gustavo.
- Meu futuro aqui no laboratório depende disso... eu só preciso que você acene com a cabeça... – Suplicou Dorian.
Gustavo consentiu com um gesto e Dorian agradeceu com um olhar pelo voto de confiança de Anelise, que apresentava as instalações para o militar.

***

Anelise subiu novamente as escadas metálicas para checar os medidores.
- O neuro compositor já está ativo Dorian, pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. – disse ela em voz alta.
            O sargento ficou em duvida se aquilo era uma piada interna, por precaução, deu dois passos para trás.
            Dorian teclou o código de execução no computador e novamente a sala começou a tremer. O oficial deu mais dois passos para trás por segurança e observou o tanque de contensão borbulhar. Dentro, a silhueta de um corpo disforme bailava lentamente ancorada pelas conexões e tubos de nutrição.
            Um aviso luminoso surgiu na tela do computador de processos: “Carga de regeneração em 73%”.
            Por um instante o supervisor substituto teve a visão de um Dorian desempregado, arrasado e entregue a bebida.
- Vamos alterar para 85%  - gritou ele.
            - Estaremos 10% acima da margem de segurança, advertiu Gustavo.
            - Relaxe, tranqüilizou Dorian. - Estamos utilizando o protocolo mínimo.
            Aziz ficou impressionado com a determinação da equipe, aproximou-se do tanque de contenção e viu o corpo de seu soldado boiando no liquido verde.
      
A mensagem de projeto concluído surgiu na tela do computador central.
            Anelise cruzou a sala e foi ao encontro de Dorian. Foi a primeira vez que os dois se abraçaram.

***

O comandante Aziz voltou para o quartel muito satisfeito com o sucesso do processo de regeneração. Gustavo retornou para o laboratório mais cedo na outra semana, para checar se o excesso de esforço não havia avariado a estrutura da máquina.
Uma semana após a regeneração, o soldado já se recuperava no ambulatório, Dorian, Anelise e Gustavo foram chamados, assim que ele voltou à consciência.
Os três se sentaram a sua volta, dentro do quarto, enquanto o soldado dormia. Acordaria assim que o efeito de sua medicação passasse.
- Minha cabeça está doendo. – Disse o soldado, passando a mão na cabeça e notando os eletrodos grudados em sua testa com esparadrapos.
Dorian levou um susto, pois estava olhando pela janela no momento que o rapaz acordou.
- Quem são vocês? – perguntou ele.
- Somos técnicos do laboratório de regeneração. – Disse Dorian se Apresentando. Eu sou Dorian, essa é a minha assistente Anelise, e aquele ao fundo é meu técnico de processos, Gustavo.  O soldado olhou os dois por alguns segundos, até entender que estava num hospital.
- Preciso voltar pro quartel, hoje é dia do meu turno... – completou o soldado, meio confuso.
- É melhor você descansar até se recuperar. - Disse Dorian, ajeitando o travesseiro do homem. – Nós estamos em um ambulatório e você ainda precisa fazer alguns exames.
- Cara, estou sentindo uma dor no peito. – Disse o soldado, simulando dificuldades para respirar. Anelise tomou a frente de Dorian para lhe explicar.
- Você sofreu um ferimento grave, tivemos de reconstruir uma parte da sua mandíbula e  pescoço.
A atenção de todos se voltou para a porta do quarto que se abriu, era o comandante Aziz entrando. Ao ver o comando o soldado na cama bateu continência.
- Descansar, soldado. – Respondeu o comandante. – vejo que você está se recuperando bem, eu nunca tinha conversado com uma pessoa regenerada antes.
- O que aconteceu comigo, por que eu estou aqui? – perguntou o paciente.



- Você lembra do rigor e do estresse de servir a sua pátria meu jovem, algo que você tentou compensar com medicamentos. Houve uma discussão entre você e outros dois soldados do seu regimento, você acabou dando um tiro de fuzil nos dois. Estão mortos agora.
- Eu matei dois soldados? – Perguntou o homem na cama, o comandante Aziz apenas acenou com a cabeça.
- E quem causou o ferimento no meu pescoço?  Perguntou o rapaz, confuso.
- Você mesmo. Cometeu suicídio dias antes do seu julgamento. - Respondeu Aziz. – Assim que você se recuperar, o levaremos de volta a corregedoria, uma nova audiência foi marcada, e você precisa estar vivo para ouvir a sentença.
A chefe da enfermaria entrou na sala naquele momento, e pediu que todos se retirassem.
- Vocês precisam sair agora, o paciente precisa receber medicação suplementar.
Dorian e seus amigos saíram, no corredor, o comandante Aziz chamou a atenção de Dorian.
- Fizeram um ótimo trabalho. Vocês contribuíram com um assunto de ordem nacional. – Disse ele. – Terão minhas recomendações.
- Obrigado senhor. – Limitou-se a agradecer Dorian, ainda perplexo com o assunto.
Os Três foram se embora, na entrada do quarto, dois soldados ficaram de vigia, para o caso de algum imprevisto acontecer com o paciente.

***

Quatro semanas após o procedimento ser concluído com êxito, a Doutora Carletti assumiu a direção geral do Laboratório de regeneração.  Dorian então foi promovido para Supervisor pleno, e ganhou sua própria sala. Graças em partes a intervenção do comandante Aziz, e as recomendações da corregedoria do Exército.
No dia de assumir seu novo cargo, aguardou ansiosa a presença de Anelise, com quem dividiria seu mais novo projeto. Dorian ficou sentado no refeitório revisando seus dados no multipad, quando a garota chegou.
- Parabéns Dorian. – Disse a garota jogando a pasta com o novo projeto na mesa.
- Obrigado Anelise! -  A comissão de controle me informou que vai revisar  os protocolos de procedimento depois do meu ultimo projeto.
Dorian abriu a pasta para saber qual seria o novo projeto a qual estava encarregado. Ficou surpreso quando viu que havia sido enviado novamente pela corregedoria do Exército, e o solicitante era o comandante Aziz.

- Parece que o comandante gostou de você. - Disse Anelise, sentando ao lado do amigo enquanto recebia seu café. - Será que mais um dos soldados cometeu suicídio?
Dorian revisou as folhas, e percebeu que já conhecia aquele prontuário.
- Não, ainda estamos tratando do mesmo caso... – Disse Dorian passando o relatório para a amiga.
Anelise viu a foto, era do soldado Pablo Virgilio Juarez, o mesmo soldado da ultima vez. Ele havia cometido suicídio novamente na cadeia, poucos dias depois de ter ouvido sua sentença pelo juiz.



Fim.


Escrito por Edson F. em maio de 2013. contatos: emodem@ig.com.br




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