A garota de
cabelos preto azulados desceu a escada lentamente, trazia em suas mãos os
registros técnicos projeto a ser desenvolvido naquela semana. No décimo quarto
andar do Instituto Bio Humano, ficavam os laboratórios de regeneração.
Próximo ao tanque de contensão,
estava Dorian, o supervisor Substituto, que aguardava os registros, enquanto
conferia os dados coletados da ultima analise no computador de processo.
Dorian recebeu
a pasta com os registros e agradeceu a Anelise sem muito empenho, quando pensou
em ser mais incisivo a garota já estava longe. Havia subido a pequena escada
metálica para chegar aos medidores nos tubos de alimentação.
- O neuro compositor já está ativo,
Dorian. Pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa vez. –
Disse a garota.
Dorian sorriu
pela brincadeira, mas estava nervoso, a ultima tentativa de regeneração havia
falhado em seus momentos finais. Era questão de tempo para que a direção do
laboratório questionasse sua capacidade de coordenar projetos de regeneração.
- Comece a essa droga logo de uma
vez! – gritou Anelise, abrindo os registros que controlavam a alimentação dos
tubos. O grito assustou Gustavo, o técnico de processos que auxiliava Dorian. O
supervisor substituto teclou um código no computador e por um instante a sala
começou a estremecer. Os nutrientes coloridos passaram a preencher os tubos em
direção ao tanque de regeneração.
- Ligue o canhão foto-cromático,
você os opera melhor do que eu. Disse Dorian para o amigo. Gustavo conferiu os parâmetros
em uma tela vertical secundaria e ativou os projetores de luz.
Um
aviso luminoso surgiu na tela de Dorian, Carga de regeneração em 73%. Lentamente
as cadeias de proteínas começaram a formar um grupo de tecidos, numa orientação
segmentada em meio ao borbulhar do líquido verde e espesso que preenchia o
tanque.
Dorian exibiu um sorriso de
satisfação quando viu a silhueta de um corpo humano começar a formar-se no
tanque, mas a estrutura se desfez levando consigo o sorriso de Dorian.
Os
tubos de alimentação foram fechados automaticamente pelo sistema de segurança,
e um alerta de estado crítico irreversível surgiu na tela do computador de
processo.
***
Dorian subiu
para o refeitório, sentou-se ao lado de Anelise que almoçava, mas não tirava os
olhos de seu Multipad, os cabelos pretos azulados longos encobriam uma parte de
seu rosto. Dorian pensou que talvez por alguma razão, os dois poderiam ser mais
próximos, só faltava encontrar um bom argumento para dizer a ela.
- Mais um projeto inconcluído.
Lamentou o rapaz.
- Você fez o procedimento
correto. Ponderou Anelise, sorvendo mais um gole de suco concentrado. - ...Garantiu
a integridade da máquina, você não vai conseguir uma promoção para supervisor
geral se causar algum dano aos sistemas de refrigeração. Foi um processo cem
por cento seguro.
- Anelise voltou a olhar para a
base de dados, fez um movimento rápido com os olhos e o Multipad trocou a
página.
- talvez seja isso... – Pensou
alto Dorian. – Talvez eu esteja cauteloso demais.
O rapaz saiu
do refeitório pensando na pilha de relatórios que precisava preencher. O
gerador do canhão foto cromático ainda lhe garantia mais um bombardeio para
aquele dia, desde que Gustavo revesse os protocolos de segurança. Dorian dobrou
o corredor e foi até a sala do amigo.
Quando chegou, o técnico já
estava juntando as coisas para ir embora. Dorian entrou na sala sem bater.
Gustavo sentiu que daquela atitude não vinha coisa boa.
- Quero que você reveja os
processos de segurança.
- Por mim tudo bem - Respondeu Gustavo.
– Farei isso na próxima segunda.
- você não esta pensando em ativar
o mesmo projeto de novo não é?
- Claro que não... – Mas preciso
saber se seria possível.
Gustavo e
Dorian voltaram ao laboratório, o técnico foi até seu computador e rodou um diagnóstico
acelerado do último processo. Dorian preferiu não informar Anelise que havia
retornando ao laboratório, ela certamente desaprovaria.
Dorian
conferia o nível dos reservatórios de fluido, quando um dos funcionários da administração
entrou no laboratório acompanhado de um militar fardado. Por um instante, Gustavo,
o operador do canhão foto cromático achou que os dois seriam presos.
- Esse é o comandante Aziz, veio
inspecionar o nosso projeto, disse o funcionário, apresentando o homem.
- Muito prazer senhor Dorian, vim
verificar como está o nosso homem. Ele era um membro importante no meu
regimento, e preciso assegurar que o seu retorno seja bem sucedido.
- Estamos fazendo os ajustes
necessários, mas temos bons prognósticos., senhor comandante.
- você é o supervisor substituto
certo?
- Sim. A doutora Carletti é a
nossa diretora de desenvolvimento, e responsável pelos projetos.
- Entenda senhor Dorian, a
corregedoria do exército está me pressionando por resultados, preciso retornar
com algo palpável em mãos. O
financiamento do seu laboratório depende disso...
- Entendo... – respondeu Dorian
engolindo seco.
- Quando vocês farão o próximo
teste? – perguntou ele.
- Estamos terminando os
preparativos agora senhor Aziz. O Senhor pode ficar para acompanhar o processo.
Disse Anelise, entrando no laboratório.
O sargento, expressou
um ar de satisfação diante da presença da linda garota.
Gustavo levou a mão à cabeça
preocupado. Sentiu seu emprego em risco, e percebeu estar numa grande
enrascada. Dorian gaguejou algo e puxou o amigo para o fundo do laboratório,
aproveitando que o militar estava distraído com a presença de Anelise.
- Cara, vai ser muito feio se o
sargento presenciar o nosso fracasso... – Advertiu Gustavo.
- Meu futuro aqui no laboratório
depende disso... eu só preciso que você acene com a cabeça... – Suplicou
Dorian.
Gustavo consentiu com um gesto e
Dorian agradeceu com um olhar pelo voto de confiança de Anelise, que
apresentava as instalações para o militar.
***
Anelise subiu
novamente as escadas metálicas para checar os medidores.
- O neuro compositor já está
ativo Dorian, pode dar inicio ao projeto, só tente não queimar a gente dessa
vez. – disse ela em voz alta.
O
sargento ficou em duvida se aquilo era uma piada interna, por precaução, deu
dois passos para trás.
Dorian
teclou o código de execução no computador e novamente a sala começou a tremer.
O oficial deu mais dois passos para trás por segurança e observou o tanque de
contensão borbulhar. Dentro, a silhueta de um corpo disforme bailava lentamente
ancorada pelas conexões e tubos de nutrição.
Um
aviso luminoso surgiu na tela do computador de processos: “Carga de regeneração
em 73%”.
Por
um instante o supervisor substituto teve a visão de um Dorian desempregado,
arrasado e entregue a bebida.
- Vamos alterar para 85% - gritou ele.
-
Estaremos 10% acima da margem de segurança, advertiu Gustavo.
-
Relaxe, tranqüilizou Dorian. - Estamos utilizando o protocolo mínimo.
Aziz
ficou impressionado com a determinação da equipe, aproximou-se do tanque de
contenção e viu o corpo de seu soldado boiando no liquido verde.
A mensagem de projeto concluído
surgiu na tela do computador central.
Anelise
cruzou a sala e foi ao encontro de Dorian. Foi a primeira vez que os dois se
abraçaram.
***
O comandante
Aziz voltou para o quartel muito satisfeito com o sucesso do processo de
regeneração. Gustavo retornou para o laboratório mais cedo na outra semana,
para checar se o excesso de esforço não havia avariado a estrutura da máquina.
Uma semana
após a regeneração, o soldado já se recuperava no ambulatório, Dorian, Anelise
e Gustavo foram chamados, assim que ele voltou à consciência.
Os três se
sentaram a sua volta, dentro do quarto, enquanto o soldado dormia. Acordaria
assim que o efeito de sua medicação passasse.
- Minha cabeça
está doendo. – Disse o soldado, passando a mão na cabeça e notando os eletrodos
grudados em sua testa com esparadrapos.
Dorian levou
um susto, pois estava olhando pela janela no momento que o rapaz acordou.
- Quem são
vocês? – perguntou ele.
- Somos
técnicos do laboratório de regeneração. – Disse Dorian se Apresentando. Eu sou
Dorian, essa é a minha assistente Anelise, e aquele ao fundo é meu técnico de
processos, Gustavo. O soldado olhou os
dois por alguns segundos, até entender que estava num hospital.
- Preciso
voltar pro quartel, hoje é dia do meu turno... – completou o soldado, meio
confuso.
- É melhor
você descansar até se recuperar. - Disse Dorian, ajeitando o travesseiro do
homem. – Nós estamos em um ambulatório e você ainda precisa fazer alguns
exames.
- Cara, estou
sentindo uma dor no peito. – Disse o soldado, simulando dificuldades para
respirar. Anelise tomou a frente de Dorian para lhe explicar.
- Você sofreu
um ferimento grave, tivemos de reconstruir uma parte da sua mandíbula e pescoço.
A atenção de
todos se voltou para a porta do quarto que se abriu, era o comandante Aziz
entrando. Ao ver o comando o soldado na cama bateu continência.
- Descansar, soldado.
– Respondeu o comandante. – vejo que você está se recuperando bem, eu nunca
tinha conversado com uma pessoa regenerada antes.
- O que
aconteceu comigo, por que eu estou aqui? – perguntou o paciente.
- Você lembra
do rigor e do estresse de servir a sua pátria meu jovem, algo que você tentou
compensar com medicamentos. Houve uma discussão entre você e outros dois
soldados do seu regimento, você acabou dando um tiro de fuzil nos dois. Estão
mortos agora.
- Eu matei
dois soldados? – Perguntou o homem na cama, o comandante Aziz apenas acenou com
a cabeça.
- E quem
causou o ferimento no meu pescoço?
Perguntou o rapaz, confuso.
- Você mesmo.
Cometeu suicídio dias antes do seu julgamento. - Respondeu Aziz. – Assim que
você se recuperar, o levaremos de volta a corregedoria, uma nova audiência foi marcada,
e você precisa estar vivo para ouvir a sentença.
A chefe da
enfermaria entrou na sala naquele momento, e pediu que todos se retirassem.
- Vocês
precisam sair agora, o paciente precisa receber medicação suplementar.
Dorian e seus
amigos saíram, no corredor, o comandante Aziz chamou a atenção de Dorian.
- Fizeram um
ótimo trabalho. Vocês contribuíram com um assunto de ordem nacional. – Disse
ele. – Terão minhas recomendações.
- Obrigado
senhor. – Limitou-se a agradecer Dorian, ainda perplexo com o assunto.
Os Três foram
se embora, na entrada do quarto, dois soldados ficaram de vigia, para o caso de
algum imprevisto acontecer com o paciente.
***
Quatro semanas
após o procedimento ser concluído com êxito, a Doutora Carletti assumiu a
direção geral do Laboratório de regeneração.
Dorian então foi promovido para Supervisor pleno, e ganhou sua própria
sala. Graças em partes a intervenção do comandante Aziz, e as recomendações da
corregedoria do Exército.
No dia de
assumir seu novo cargo, aguardou ansiosa a presença de Anelise, com quem
dividiria seu mais novo projeto. Dorian ficou sentado no refeitório revisando
seus dados no multipad, quando a garota chegou.
- Parabéns
Dorian. – Disse a garota jogando a pasta com o novo projeto na mesa.
- Obrigado
Anelise! - A comissão de controle me
informou que vai revisar os protocolos
de procedimento depois do meu ultimo projeto.
Dorian abriu a
pasta para saber qual seria o novo projeto a qual estava encarregado. Ficou
surpreso quando viu que havia sido enviado novamente pela corregedoria do
Exército, e o solicitante era o comandante Aziz.
- Parece que o
comandante gostou de você. - Disse Anelise, sentando ao lado do amigo enquanto
recebia seu café. - Será que mais um dos soldados cometeu suicídio?
Dorian revisou
as folhas, e percebeu que já conhecia aquele prontuário.
- Não, ainda
estamos tratando do mesmo caso... – Disse Dorian passando o relatório para a
amiga.
Anelise viu a
foto, era do soldado Pablo Virgilio Juarez, o mesmo soldado da ultima vez. Ele havia
cometido suicídio novamente na cadeia, poucos dias depois de ter ouvido sua
sentença pelo juiz.
Fim.
Escrito por Edson F. em maio de 2013.
contatos: emodem@ig.com.br

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