segunda-feira, 14 de setembro de 2015

APRECIE O SILENCIO








Perdido entre as árvores do jardim, um rapaz caminhava desorientado entre as flores, não fazia mais noção de quanto tempo estava ali. Apenas corria de um lado para o outro, tentando-lo encontrar algo familiar. Entre as arvores havia algumas construções, adornos e pequenos muros que separavam um verdejante gramado. Alguns cercados serviam de suportes para arranjos de flores e trepadeiras que se misturavam e confundiam-se com o ambiente. Lembrava um imenso clube de campo, de tão vazio poderia até ser um cemitério, embora não houvesse nenhuma indicação de que haviam pessoas enterradas por lá. “O que eu estou fazendo aqui?” pensou o rapaz. Sua ultima lembrança era de estar praticando escalada próximo de uma cachoeira. Lembrava de estar a poucos metros do chão, quando pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, mas não se lembrava da queda. “estou morto” foi seu segundo pensamento.
Mas não se sentia morto, ao contrário sentia-se bem vivo, podia ouvir seu coração pulsar acelerado, sentia o calor dos raios de sol que atravessava a copa das árvores. Seu hálito tinha o sabor da barra de cereal que comera horas antes, e seu corpo ainda vibrava quando fragmentos da lembrança de uma garota vinham a sua mente.
                “Não posso estar morto”, pensou ele. – O sentimento de amor que sentia por Vanessa transbordava seu ser, era seu elo com mundo e o impulsionava a viver. “quando a gente morre o amor acaba” pensou ele. Ninguém iria passar o resto da eternidade amando tanto alguém, concluiu. Seria cruel demais.
                O barulho de água e a umidade do ar indicavam um pequeno rio por perto. Após um tempo de caminhada o rapaz chegou a um descampado de onde ele acreditava estar a água. De um pequeno morro viu a imagem de uma garota próxima do leito do rio. A primeira vista pensou tratar-se de Vanessa, mas o que ela estaria fazendo dentro de seu sonho idílico?
                Aproximou-se cautelosamente. Mais próxima, a garota de costas já não se assemelhava a Vanessa, seus cabelos elas mais claros e refletiam o brilho do sol, acompanhando o reflexo na água. Parecia ser mais jovem e estava descalça. Olhava perdidamente para o horizonte e parecia apreciar o silêncio.
                O rapaz ficou parado por um momento a alguns passos da garota. Procurava palavras para abordá-la. O simples “oi” poderia assustá-la naquele local tão deserto, e se ela saísse correndo, com ela iriam as respostas sobre o que ele fazia ali. Criou coragem, engoliu seco e iria dizer algo, mas a garota virou-se primeiro, percebendo sua presença. Abriu um sorriso e saudou sua chegada.
                - Está se sentindo perdido não é? Perguntou ela.
                - Bastante, respondeu o rapaz. – onde nós estamos? Perguntou ele.
                - Não sei...  - respondeu ela. - Dentro do meu sonho, talvez.
                O rapaz não se sentia personagem de sonho. Tinha vida própria, seu amor era verdadeiro, pensou ele. Um intruso talvez, mas não havia sido imaginado pela garota.
                - Ou talvez eu esteja sonhando e você faça parte do meu sonho. – Disse ele.
                -Isso também pode ser. Brincou a garota. - Explicaria muita coisa.
                O rapaz caminhou até a borda do rio. Olhou seu reflexo na água, ao seu lado havia uma pedra, e nela havia algo escrito.
- Jéssica. – Adiantou a garota. – é o meu nome. A única coisa que sei. Fui eu quem escreveu ele ai...
- Você não se lembra de mais nada? – Perguntou ele.
- Não. – disse ela sem forçar muito a memória.
- Seus pais, onde você mora, sua cor favorita... – tentou ele.

- Acho que tenho mãe. – Disse Jessica. - Mas não me lembro do rosto dela. De qualquer forma, a sensação de que ela existe me parece mais importante. E eu sinto que ela esta aqui comigo.
O rapaz pensou por alguns instantes, tentou refazer seus passos.
- Deixa ver. - Disse ele, - Lembro de descer do ônibus. Lembro de ter visto algumas garotas andando de bicicleta, comprei um mapa com um guia turístico...
- Nossa. - Exclamou ela. – Tudo isso aqui?
- Não. – respondeu ele. – Em um lugar parecido, mas não aqui. A vegetação era diferente e havia uma cachoeira próxima de onde eu caí.
- o que é uma cachoeira? – perguntou ela, O rapaz sorriu imaginando a gravidade do tombo que a garota devia ter levado.
- É uma extensão do rio, mas a água desce na vertical. – explicou ele.
- Tem algo assim aqui próximo. – Lembrou-se Jessica.
Os dois combinaram de ir juntos a cachoeira. No caminho o rapaz revelou seu nome, Raphael. Contou algo sobre seu relacionamento com Wanessa. Sobre como as horas se arrastavam quando eles não estavam juntos, e sobre sua mania de concertar objetos.
 Subindo por uma trilha que se distanciava do rio, podia-se ver o alto da colina, e ouvir o barulho da água caindo, só então Raphael se deu conta de que outras pessoas também haviam passado por lá.
- você já se encontrou com outras pessoas por aqui? - perguntou ele a Jessica.
- Claro. – respondeu Jessica. – mas você é o primeiro a me contar sobre detalhes da sua vida. O resto das pessoas que eu encontrei estavam desmemoriadas como eu.
- E o que aconteceu com eles? – perguntou o rapaz.
Não sei, depois de certo tempo eles desapareciam entre as arvores e não mais voltavam.
Chegaram próximo a cachoeira. Raphael olhou a sua volta. Alguns pássaros afugentaram-se com a presença dos dois, mostrou-se intrigado, não era a mesma cachoeira onde havia sofrido o acidente, mas parecia terrivelmente semelhante.
- Este lugar... – disse ele. - É familiar. O cheiro, parece que eu já estive aqui a muito tempo atrás.
Jéssica contemplou a cachoeira por alguns momentos, alguns pingos d água atingiram seu cabelo.
- Você faz alguma idéia de onde estamos? – perguntou ela.
- Não sei Jessica. – não consigo imaginar porque viemos para cá, nem porque você não recorda de momentos antes de chegar aqui.
Jessica olhou para o alto, tentou enxergar de onde vinha a água. Ao lado da cachoeira um paredão de pedras se estendia formando um grande muro.
- o Maximo que andei foi até aqui. – disse ela. – Mas você pode passar para o outro lado...
Raphael examinou as pedras e alguns galhos no barranco. Podia vencer aquele obstáculo. Só tinha duvidas sobre o que encontraria do outro lado. Mas mesmo que escalasse, não havia forma de levar Jessica com ele.
- Você vai ter que me esperar aqui. – disse o rapaz com pesar.
- Sinto que você não ira voltar. – como as outras pessoas.
- Mas eu sinto que em breve a gente vai se ver. – Disse Raphael, encerrando com um sorriso.
Raphael apoiou-se em uma saliência na pedra, em um impulso já estava a dois metros do chão. Embaixo Jessica observava apreensiva. Uma queda daquela altura e ele quebraria o pescoço, pensou ele. “Vanessa iria ficar muito brava comigo”.  Era o mesmo pensamento que havia passado pela cabeça de Raphael.
Raphael pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, veio a queda e com ela escuridão.
Ao invés de sentir o impacto, sentiu uma sensação de conforto, mas este foi interrompido por um solavanco. As mãos estavam dormentes e o corpo dolorido. O rapaz acordou em um carro, deitado no banco de trás.
- Minha cabeça ta doendo... – disse ele. Do banco do motorista, ouviu uma voz e mulher.
- Você levou um tombo daqueles. – Disse a mulher que dirigia a picape. – Mas eu vou te levar para um hospital. Acho que você ficou desacordado por certo tempo.
Raphael pensou reconhecer o tom da voz. Levantou a cabeça com dificuldade, enxergou uma bolsa com pertences femininos no banco da frente. A mulher que dirigia o carro tinha os cabelos claros lisos e compridos, iguais ao da garota encontrada na borda do lago.
- Obrigado por me socorrer. – disse Raphael, com a mão na cabeça, ainda enjoado pelo tombo.
- Na verdade não fui eu. – disse a mulher sorrindo. - Foram alguns rapazes que estava fazendo trilha próximo à cachoeira. Eu não poderia te ajudar. Ainda mais nestas condições, disse ela mostrando a barriga saliente. – Estou grávida. - Completou ela.
- Tive um sonho muito estranho. – comentou Raphael. – Encontrei uma garota chamada Jessica, na beira de um rio, e no sonho também sofri uma queda...
- Interessante. – comentou a mulher, observando o semáforo na entrada da avenida que dava para o hospital. – Estava pensando neste nome para a minha filha que está pra nascer.
A mulher parou a picape na área de emergência do hospital. Dois enfermeiros aproximaram com uma maca.
- Você iria gostar de conhecer meu marido, ele também gosta de esportes radicais. –Disse ela. – Quem sabe você me visita, quando o bebê nascer...
Raphael fez um sinal de Ok com o polegar, fechou os olhos e adormeceu novamente.


Fim.

Historia escrita por Edson F. em agosto de 2008.

Contatos: emodem@ig.com.br

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