Perdido
entre as árvores do jardim, um rapaz caminhava desorientado entre as flores,
não fazia mais noção de quanto tempo estava ali. Apenas corria de um lado para
o outro, tentando-lo encontrar algo familiar. Entre as arvores havia algumas
construções, adornos e pequenos muros que separavam um verdejante gramado.
Alguns cercados serviam de suportes para arranjos de flores e trepadeiras que
se misturavam e confundiam-se com o ambiente. Lembrava um imenso clube de
campo, de tão vazio poderia até ser um cemitério, embora não houvesse nenhuma
indicação de que haviam pessoas enterradas por lá. “O que eu estou fazendo
aqui?” pensou o rapaz. Sua ultima lembrança era de estar praticando escalada
próximo de uma cachoeira. Lembrava de estar a poucos metros do chão, quando
pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, mas não se lembrava
da queda. “estou morto” foi seu segundo pensamento.
Mas não se
sentia morto, ao contrário sentia-se bem vivo, podia ouvir seu coração pulsar
acelerado, sentia o calor dos raios de sol que atravessava a copa das árvores.
Seu hálito tinha o sabor da barra de cereal que comera horas antes, e seu corpo
ainda vibrava quando fragmentos da lembrança de uma garota vinham a sua mente.
“Não posso estar morto”, pensou ele. – O sentimento
de amor que sentia por Vanessa transbordava seu ser, era seu elo com mundo e o
impulsionava a viver. “quando a gente morre o amor acaba” pensou ele. Ninguém
iria passar o resto da eternidade amando tanto alguém, concluiu. Seria cruel
demais.
O barulho de água e a umidade do ar indicavam um
pequeno rio por perto. Após um tempo de caminhada o rapaz chegou a um
descampado de onde ele acreditava estar a água. De um pequeno morro viu a
imagem de uma garota próxima do leito do rio. A primeira vista pensou tratar-se
de Vanessa, mas o que ela estaria fazendo dentro de seu sonho idílico?
Aproximou-se cautelosamente. Mais próxima, a garota
de costas já não se assemelhava a Vanessa, seus cabelos elas mais claros e
refletiam o brilho do sol, acompanhando o reflexo na água. Parecia ser mais
jovem e estava descalça. Olhava perdidamente para o horizonte e parecia
apreciar o silêncio.
O rapaz ficou parado por um momento a alguns passos
da garota. Procurava palavras para abordá-la. O simples “oi” poderia assustá-la
naquele local tão deserto, e se ela saísse correndo, com ela iriam as respostas
sobre o que ele fazia ali. Criou coragem, engoliu seco e iria dizer algo, mas a
garota virou-se primeiro, percebendo sua presença. Abriu um sorriso e saudou
sua chegada.
- Está se sentindo perdido não é? Perguntou ela.
- Bastante, respondeu o rapaz. – onde nós estamos?
Perguntou ele.
- Não sei... -
respondeu ela. - Dentro do meu sonho, talvez.
O rapaz não se sentia personagem de sonho. Tinha vida
própria, seu amor era verdadeiro, pensou ele. Um intruso talvez, mas não havia
sido imaginado pela garota.
- Ou talvez eu esteja sonhando e você faça parte do
meu sonho. – Disse ele.
-Isso também pode ser. Brincou a garota. - Explicaria
muita coisa.
O rapaz caminhou até a borda do rio. Olhou seu
reflexo na água, ao seu lado havia uma pedra, e nela havia algo escrito.
- Jéssica.
– Adiantou a garota. – é o meu nome. A única coisa que sei. Fui eu quem escreveu
ele ai...
- Você não
se lembra de mais nada? – Perguntou ele.
- Não. –
disse ela sem forçar muito a memória.
- Seus
pais, onde você mora, sua cor favorita... – tentou ele.
- Acho que
tenho mãe. – Disse Jessica. - Mas não me lembro do rosto dela. De qualquer
forma, a sensação de que ela existe me parece mais importante. E eu sinto que
ela esta aqui comigo.
O rapaz
pensou por alguns instantes, tentou refazer seus passos.
- Deixa
ver. - Disse ele, - Lembro de descer do ônibus. Lembro de ter visto algumas
garotas andando de bicicleta, comprei um mapa com um guia turístico...
- Nossa. -
Exclamou ela. – Tudo isso aqui?
- Não. –
respondeu ele. – Em um lugar parecido, mas não aqui. A vegetação era diferente
e havia uma cachoeira próxima de onde eu caí.
- o que é
uma cachoeira? – perguntou ela, O rapaz sorriu imaginando a gravidade do tombo
que a garota devia ter levado.
- É uma
extensão do rio, mas a água desce na vertical. – explicou ele.
- Tem algo
assim aqui próximo. – Lembrou-se Jessica.
Os dois
combinaram de ir juntos a cachoeira. No caminho o rapaz revelou seu nome,
Raphael. Contou algo sobre seu relacionamento com Wanessa. Sobre como as horas
se arrastavam quando eles não estavam juntos, e sobre sua mania de concertar
objetos.
Subindo por uma trilha que se distanciava do
rio, podia-se ver o alto da colina, e ouvir o barulho da água caindo, só então
Raphael se deu conta de que outras pessoas também haviam passado por lá.
- você já
se encontrou com outras pessoas por aqui? - perguntou ele a Jessica.
- Claro. –
respondeu Jessica. – mas você é o primeiro a me contar sobre detalhes da sua
vida. O resto das pessoas que eu encontrei estavam desmemoriadas como eu.
- E o que
aconteceu com eles? – perguntou o rapaz.
Não sei,
depois de certo tempo eles desapareciam entre as arvores e não mais voltavam.
Chegaram
próximo a cachoeira. Raphael olhou a sua volta. Alguns pássaros afugentaram-se
com a presença dos dois, mostrou-se intrigado, não era a mesma cachoeira onde
havia sofrido o acidente, mas parecia terrivelmente semelhante.
- Este
lugar... – disse ele. - É familiar. O cheiro, parece que eu já estive aqui a
muito tempo atrás.
Jéssica
contemplou a cachoeira por alguns momentos, alguns pingos d água atingiram seu
cabelo.
- Você faz
alguma idéia de onde estamos? – perguntou ela.
- Não sei
Jessica. – não consigo imaginar porque viemos para cá, nem porque você não
recorda de momentos antes de chegar aqui.
Jessica
olhou para o alto, tentou enxergar de onde vinha a água. Ao lado da cachoeira
um paredão de pedras se estendia formando um grande muro.
- o Maximo
que andei foi até aqui. – disse ela. – Mas você pode passar para o outro
lado...
Raphael
examinou as pedras e alguns galhos no barranco. Podia vencer aquele obstáculo.
Só tinha duvidas sobre o que encontraria do outro lado. Mas mesmo que
escalasse, não havia forma de levar Jessica com ele.
- Você vai
ter que me esperar aqui. – disse o rapaz com pesar.
- Sinto que
você não ira voltar. – como as outras pessoas.
- Mas eu
sinto que em breve a gente vai se ver. – Disse Raphael, encerrando com um
sorriso.
Raphael
apoiou-se em uma saliência na pedra, em um impulso já estava a dois metros do
chão. Embaixo Jessica observava apreensiva. Uma queda daquela altura e ele
quebraria o pescoço, pensou ele. “Vanessa iria ficar muito brava comigo”. Era o mesmo pensamento que havia passado pela
cabeça de Raphael.
Raphael
pisou em falso numa pedra. Sentiu um calafrio e um susto, veio a queda e com
ela escuridão.
Ao invés de
sentir o impacto, sentiu uma sensação de conforto, mas este foi interrompido
por um solavanco. As mãos estavam dormentes e o corpo dolorido. O rapaz acordou
em um carro, deitado no banco de trás.
- Minha
cabeça ta doendo... – disse ele. Do banco do motorista, ouviu uma voz e mulher.
- Você
levou um tombo daqueles. – Disse a mulher que dirigia a picape. – Mas eu vou te
levar para um hospital. Acho que você ficou desacordado por certo tempo.
Raphael
pensou reconhecer o tom da voz. Levantou a cabeça com dificuldade, enxergou uma
bolsa com pertences femininos no banco da frente. A mulher que dirigia o carro
tinha os cabelos claros lisos e compridos, iguais ao da garota encontrada na
borda do lago.
- Obrigado
por me socorrer. – disse Raphael, com a mão na cabeça, ainda enjoado pelo
tombo.
- Na
verdade não fui eu. – disse a mulher sorrindo. - Foram alguns rapazes que
estava fazendo trilha próximo à cachoeira. Eu não poderia te ajudar. Ainda mais
nestas condições, disse ela mostrando a barriga saliente. – Estou grávida. -
Completou ela.
- Tive um
sonho muito estranho. – comentou Raphael. – Encontrei uma garota chamada
Jessica, na beira de um rio, e no sonho também sofri uma queda...
-
Interessante. – comentou a mulher, observando o semáforo na entrada da avenida
que dava para o hospital. – Estava pensando neste nome para a minha filha que
está pra nascer.
A mulher
parou a picape na área de emergência do hospital. Dois enfermeiros aproximaram
com uma maca.
- Você iria
gostar de conhecer meu marido, ele também gosta de esportes radicais. –Disse
ela. – Quem sabe você me visita, quando o bebê nascer...
Raphael fez
um sinal de Ok com o polegar, fechou os olhos e adormeceu novamente.
Fim.
Historia escrita por Edson F. em
agosto de 2008.
Contatos: emodem@ig.com.br

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