Dentro de um desses supermercados
imensos onde cada seção é uma infindável disposição de prateleira, onde
produtos de vários tipo se empilham em suas mais variadas formas e cores, as
vezes em pilhas imensas que parecem querer tocar o teto, Lauro, um jovem rapaz,
vasculhava uma pilha de livros em oferta. Estava a tanto tempo naquele supermercado
que não lembrava mais como e quando havia chegado ali. Já havia andado tanto
pelos corredores que suas pernas doíam, como se houvesse atravessado uma
montanha andando.
Na pilha de livros que se amontoavam
fora de ordem, o jovem encontrou um especial com um dos seus temas preferidos.
“Território dos dragões” tratava de um mundo fantástico, onde guerreiros
corajosos cruzavam florestas inóspitas, combatendo feiticeiros, ogros gigantes
e ocasionalmente, salvavam donzelas aprisionadas em reinos esquecidos.
Um dos personagens preferidos de Lauro era Elijah, um dos
cavaleiros do rei, membro da segurança real e protetor costumas da jovem princesa
Mília. Está, segundo a lenda, poderia colocar uma fera para dormir apenas com
um toque de seus dedos na face da criatura.
Lauro
comemorou o achado, ainda não havia lido aquela edição por completo, e muitas
aventuras de Elijah o aguardavam. O rapaz olhou ao longe entre as pessoas que
caminhavam incertas pelos corredores e avaliou quanto tempo levaria esperando
na fila para pagar pelo livro.
Teria ido até os caixas encerrando
seu passeio pela loja quando algo lhe chamou a atenção. Na seção de brinquedos,
um amplo espaço aberto com pequenas pilhas de caixas coloridas, bonecas e
bichos de pelúcia, entre elas encontrava-se estacionada uma carruagem branca
com detalhes azuis e dourados, adornada com flores e rodeada de brinquedos.
A carruagem por si só já era bem
interessante, mas algo dentro dela que fascinou seus olhos. Sentada no banco de
trás, penteando seus longos cabelos loiros, havia uma linda garota vestida de
princesa, tal qual Lauro imagina ser Mília, a personagem ficcional do livro e
companheira de Elijah em suas aventuras.
Lauro
aproximou-se da carruagem, mas manteve certa distancia, quase esbarrou em um
grupo de caixas de peças para montar, uma das caixas estava aberta para demonstração
e as peças se espalharam pelo chão sobre um carpete colorido, colocado ali para
que as crianças pudessem brincar.
O barulho da queda das caixas chamou
a atenção da garota que por um momento, parou de pentear os longos cabelos e
lançou um sorriso para Lauro.
O rapaz correspondeu ao sorriso meio
envergonhado e tratou de colocar os brinquedos em ordem novamente.
- Está se divertindo com os brinquedos? – perguntou a garota,
guardando o espelho em qual se admirava.
- Acho que não vou querer esses, está muito desorganizado.
Mas achei bacana essa ação promocional, queria ver os organizadores montando
essa carruagem, ficou fantástica... Você também ficou perfeita como princesa! –
Elogiou Lauro.
- Nem me diga – Respondeu a garota. - Está quase impossível
manter essa peruca aprumada na minha cabeça. Não posso parecer uma princesa
descabelada.
- Quanto tempo faz que essa ação de marketing começou aqui?
- começamos na segunda e vamos até a próxima quarta, você
pode pegar alguns cupons promocionais para concorrer ao sorteio no próximo
domingo, desses brinquedos a sua volta. - Instruiu a garota. No chão próximo a
carruagem haviam caixas com miniaturas, uma delas chamou a atenção de Lauro,
que apanhou uma delas para ver mais de pero. Assim como em seu livro, a caixa
trazia personagens de uma realidade fantástica. Lauro ficou espantado com o
realismo da representação dos personagens, cada miniatura representava um
guerreiro empunhando uma espada em varias posições distintas de luta. Em uma
dela, um guerreiro dava a impressão de correr enquanto empunhava sua espada, em
outra miniatura, dois guerreiros degladiavam-se. A que mais impressionou Lauro
foi a imagem de um soldado da guarda do rei. Estava ajoelhado e parecia ferido em batalha. Algo
mórbido para um brinquedo, dava para perceber a expressão de dor no rosto da
pequena imagem, a sensação de esforço perdido e a responsabilidade do
compromisso falho...
As figuras
de ação eram vendidas em conjunto, ao seu lado em uma caixa maior, estavam os
cenários os as pequenas figuras de ação podiam ser posicionadas montando vários
enredos, um dos cenários era de um pequeno acampamento na floresta, onde os
guerreiros descansavam próximos a um rio.
- Preencha
um cupom... – Pediu a garota, reconquistando a atenção do rapaz.
- Lauro.
Pede me chamar de Lauro.
- o meu é Lilah.
– se apresentou a garota.
-É um bom
nome para uma princesa. Disse ele, a garota sorriu.
- Quero ver você dizer isso para a princesa do período da
tarde, o nome dela é Guilhermine...
Os dois riram por um momento, até
chegar um período de silêncio.
- É sobre o que esse livro que você leva ai? – Perguntou ela.
Lauro levantou o livro na altura da janela e mostrou a foto para a garota.
- É uma coletânea de contos de fantasia, com magos, duendes e
bruxas, acho que você iria gostar. Tem algumas princesas nele também. Inclusive
uma das personagens, Milia, lembra muito você. Gosto muito de um personagem
chamado Elijah, ele é um soldado do rei, certa vez...
Lauro não pode terminar, foi interrompido pela garota que já
estva de saída. Era chegada a hora do seu intervalo.
- Está chegando a pausa do meu lanche, a gente conversa mais
em outra oportunidade. – Disse ela.
- A gente pode almoçar junto, arriscou Lauro, e você me conta
mais da sua vida de princesa.
-- Só tenho trinta minutos... mas você pode me fazer companhia
na praça de alimentação. – Respondeu a garota.
Lilah retirou a peruca e guardou numa caixa dentro da
carruagem, seu cabelo castanho e cacheado nas pontas era ainda mais bonito.
Lauro pensou que, se a princesa Milia fosse uma pessoa,
certamente pareceria com aquela garota. Lilah forçou a porta da carruagem mas
não conseguiu sair, esticou o braço pela janela mas não conseguiu puxar o
ferrolho que fechava a porta.
- Acho que estou presa. Você pode dar a volta e abrir a porta
para mim?
- Claro. Respondeu Lauro. O rapaz deu a volta na pilha de brinquedos
e passou para o outro lado da carruagem. A sua frente havia um outro carpete
com brinquedos espalhados pelo chão, no fundo próximo a parede haviam bancos
com veludo marrom. Sobre um deles havia uma criança deitada de bruços como que
adormecida.
- Alguém esqueceu uma criança dormindo ali. – Alertou Lauro,
indo em direção ao garoto.
Nós temos pouco tempo Lauro! – Advertiu a garota. – me tire
daqui e eu levo o garoto até a gerência, lá poderemos localizar a mãe dele.
Por um momento Lauro ficou indeciso no meio do caminho.
Sentiu o casaco nas pernas e o local onde estava a criança pareceu mais longe.
- Vamos! Abra logo está porta! – ordenou a garota.
Lauro voltou para a carruagem, a porta estava trancada apenas
com uma pequena tranca, se Lilah tivesse esticado mais o braço pela janela,
teria conseguido sair sozinha. Mesmo assim Lauro soltou a tranca e voltou sua
atenção para o garoto. Não dava pra entender como uma mãe ou parente poderia
ter esquecido uma criança adormecida tanto tempo ali. Lauro olhou a sua volta
tentando encontrar alguma pessoa desavisada, mas as pessoas passavam longe.
O rapaz aproximou-se e curvou-se para
acordar o garoto. Chacoalhou levemente a criança pelo ombro, mas a criança não
acordou. Foi então que Lauro percebeu que ela estava manchada de sangue na parte
da frente da blusa, um leve fio de sangue escorria lentamente de seu nariz.
- Lilah, esse garoto está ferido! – gritou Lauro pedindo
ajuda para amiga.
Lilah aguardava parada próximo a
carruagem, calada, exibia um maléfico sorriso. O rapaz sentiu um calafrio pelo
corpo, e a realidade a sua volta começou a girar, o carpete sob seus pés transformou-se
em lama, os corredores a sua volta com suas enormes prateleiras deram lugar a
uma floresta. A escuridão preencheu o lugar, iluminada pela luz da lua e por
tochas espalhas pela estrada feitas com resto de estopa e gordura de carneiro.
Lauro agora era Elijah, vestia uma cota de
malha coberta por uma pele de antílope, a neve caia suavemente sobre seus
ombros e suas pernas doíam como quem tivesse escalado uma montanha. A sua frente, a garota vestida de princesa
também havia mudado, mas de certa forma, continuava a mesma, seus cabelos agora
eram escuros e caracolados nas pontas, seus lábios brilhavam, vestia uma longa
capa vermelho escuro, e trazia em seu pescoço um medalhão com formato de sol incrustado
com uma ametista.
- Obrigado por me libertar Elijah! – agradeceu ela, a tranca
havia sido enfeitiçada, se a bruxa a tivesse tocado, teria uma grande
queimadura na mão. O que antes era uma carruagem, revelou-se ser uma jaula de
madeira em cima de uma carroça.
O jovem desorientado, aos poucos
recobrou sua memória, ele mesmo havia ajudado seus companheiros a prender a
bruxa na gaiola, Elijah e o nobre guerreiro Nihilen haviam ficado encarregados de
vigiá-la naquela noite.
Elijah
correu para perto das rochas e encontrou o amigo (que antes era o garoto
adormecido) desacordado, mas ainda vivo.
O guerreiro
empunhou novamente sua espada e preparou-se para a batalha, mas não havia muito
a ser feito, a não ser morrer com honra.
- Fique
aonde está Elijah – Advertiu a bruxa. – Não vale a pena morrer agora, e você
precisa proteger sua princesa lembra-se?
Realmente,
Milia estava em algum lugar e era o real motivo da sua jornada. Elijah sentiu
que precisava estar com ela o mais rápido possivel.
Ouviu-se o
barulho de homens correndo pela floresta, eram os companheiros de Elijah que
voltavam em seu auxilio, Lillah sabia que não poderia dar conta de seu
devaneio. A bruxa conjurou um encantamento rápido e num instante sei corpo
tornou-se pó, reagrupando-se no ar na forma de algo parecido com um corvo. O
corvo voou pelo céu deixando para trás a capa vermelha caída pelo chão.
- Elijah
você está bem? Perguntou um de seus
amigos que corria em seu socorro, o resto do grupo foi socorrer Nihilen que apesar
de nocauteado já recobrava a consciência.
- Ela me
jogou um feitiço, respondeu o rapaz. – me fez acreditar que eu era outra
pessoa, vivendo em outra realidade... Mas eu conto sobre isso depois, precisamos
encontrar Mília...
Novamente
reunido, o grupo continuou sua jornada, prontos para as aventuras e perigos que
ainda estavam por vir, o sol da manhã surgiu por trás das montanhas refletindo
na neve, no alto da montanha um grupo de lobos acompanhavam atentos a passagens
dos bravos guerreiros da guarda do rei.
Fim.
Historia escrita por Edson F. em maio
de 2013.
Contatos: emodem@ig.com.br

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