segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A Sombra da Maldade










  
Dentro de um desses supermercados imensos onde cada seção é uma infindável disposição de prateleira, onde produtos de vários tipo se empilham em suas mais variadas formas e cores, as vezes em pilhas imensas que parecem querer tocar o teto, Lauro, um jovem rapaz, vasculhava uma pilha de livros em oferta. Estava a tanto tempo naquele supermercado que não lembrava mais como e quando havia chegado ali. Já havia andado tanto pelos corredores que suas pernas doíam, como se houvesse atravessado uma montanha andando.
Na pilha de livros que se amontoavam fora de ordem, o jovem encontrou um especial com um dos seus temas preferidos. “Território dos dragões” tratava de um mundo fantástico, onde guerreiros corajosos cruzavam florestas inóspitas, combatendo feiticeiros, ogros gigantes e ocasionalmente, salvavam donzelas aprisionadas em reinos esquecidos.
Um dos personagens preferidos de Lauro era Elijah, um dos cavaleiros do rei, membro da segurança real e protetor costumas da jovem princesa Mília. Está, segundo a lenda, poderia colocar uma fera para dormir apenas com um toque de seus dedos na face da criatura.
            Lauro comemorou o achado, ainda não havia lido aquela edição por completo, e muitas aventuras de Elijah o aguardavam. O rapaz olhou ao longe entre as pessoas que caminhavam incertas pelos corredores e avaliou quanto tempo levaria esperando na fila para pagar pelo livro.
Teria ido até os caixas encerrando seu passeio pela loja quando algo lhe chamou a atenção. Na seção de brinquedos, um amplo espaço aberto com pequenas pilhas de caixas coloridas, bonecas e bichos de pelúcia, entre elas encontrava-se estacionada uma carruagem branca com detalhes azuis e dourados, adornada com flores e rodeada de brinquedos.
A carruagem por si só já era bem interessante, mas algo dentro dela que fascinou seus olhos. Sentada no banco de trás, penteando seus longos cabelos loiros, havia uma linda garota vestida de princesa, tal qual Lauro imagina ser Mília, a personagem ficcional do livro e companheira de Elijah em suas aventuras.
            Lauro aproximou-se da carruagem, mas manteve certa distancia, quase esbarrou em um grupo de caixas de peças para montar, uma das caixas estava aberta para demonstração e as peças se espalharam pelo chão sobre um carpete colorido, colocado ali para que as crianças pudessem brincar.
O barulho da queda das caixas chamou a atenção da garota que por um momento, parou de pentear os longos cabelos e lançou um sorriso para Lauro.
O rapaz correspondeu ao sorriso meio envergonhado e tratou de colocar os brinquedos em ordem novamente.
- Está se divertindo com os brinquedos? – perguntou a garota, guardando o espelho em qual se admirava.
- Acho que não vou querer esses, está muito desorganizado. Mas achei bacana essa ação promocional, queria ver os organizadores montando essa carruagem, ficou fantástica... Você também ficou perfeita como princesa! – Elogiou Lauro.
- Nem me diga – Respondeu a garota. - Está quase impossível manter essa peruca aprumada na minha cabeça. Não posso parecer uma princesa descabelada.
- Quanto tempo faz que essa ação de marketing começou aqui?
- começamos na segunda e vamos até a próxima quarta, você pode pegar alguns cupons promocionais para concorrer ao sorteio no próximo domingo, desses brinquedos a sua volta. - Instruiu a garota. No chão próximo a carruagem haviam caixas com miniaturas, uma delas chamou a atenção de Lauro, que apanhou uma delas para ver mais de pero. Assim como em seu livro, a caixa trazia personagens de uma realidade fantástica. Lauro ficou espantado com o realismo da representação dos personagens, cada miniatura representava um guerreiro empunhando uma espada em varias posições distintas de luta. Em uma dela, um guerreiro dava a impressão de correr enquanto empunhava sua espada, em outra miniatura, dois guerreiros degladiavam-se. A que mais impressionou Lauro foi a imagem de um soldado da guarda do rei. Estava ajoelhado e parecia ferido em batalha. Algo mórbido para um brinquedo, dava para perceber a expressão de dor no rosto da pequena imagem, a sensação de esforço perdido e a responsabilidade do compromisso falho...
            As figuras de ação eram vendidas em conjunto, ao seu lado em uma caixa maior, estavam os cenários os as pequenas figuras de ação podiam ser posicionadas montando vários enredos, um dos cenários era de um pequeno acampamento na floresta, onde os guerreiros descansavam próximos a um rio.
            - Preencha um cupom... – Pediu a garota, reconquistando a atenção do rapaz. 
            - Lauro. Pede me chamar de Lauro.
            - o meu é Lilah. – se apresentou a garota.
            -É um bom nome para uma princesa. Disse ele, a garota sorriu.
- Quero ver você dizer isso para a princesa do período da tarde, o nome dela é Guilhermine...
Os dois riram por um momento, até chegar um período de silêncio.
- É sobre o que esse livro que você leva ai? – Perguntou ela. Lauro levantou o livro na altura da janela e mostrou a foto para a garota.
- É uma coletânea de contos de fantasia, com magos, duendes e bruxas, acho que você iria gostar. Tem algumas princesas nele também. Inclusive uma das personagens, Milia, lembra muito você. Gosto muito de um personagem chamado Elijah, ele é um soldado do rei, certa vez...
Lauro não pode terminar, foi interrompido pela garota que já estva de saída. Era chegada a hora do seu intervalo.
- Está chegando a pausa do meu lanche, a gente conversa mais em outra oportunidade. – Disse ela.
- A gente pode almoçar junto, arriscou Lauro, e você me conta mais da sua vida de princesa.
-- Só tenho trinta minutos... mas você pode me fazer companhia na praça de alimentação. – Respondeu a garota.
Lilah retirou a peruca e guardou numa caixa dentro da carruagem, seu cabelo castanho e cacheado nas pontas era ainda mais bonito.
Lauro pensou que, se a princesa Milia fosse uma pessoa, certamente pareceria com aquela garota. Lilah forçou a porta da carruagem mas não conseguiu sair, esticou o braço pela janela mas não conseguiu puxar o ferrolho que fechava a porta.
- Acho que estou presa. Você pode dar a volta e abrir a porta para mim?
- Claro. Respondeu Lauro. O rapaz deu a volta na pilha de brinquedos e passou para o outro lado da carruagem. A sua frente havia um outro carpete com brinquedos espalhados pelo chão, no fundo próximo a parede haviam bancos com veludo marrom. Sobre um deles havia uma criança deitada de bruços como que adormecida.
- Alguém esqueceu uma criança dormindo ali. – Alertou Lauro, indo em direção ao garoto.
Nós temos pouco tempo Lauro! – Advertiu a garota. – me tire daqui e eu levo o garoto até a gerência, lá poderemos localizar a mãe dele.
Por um momento Lauro ficou indeciso no meio do caminho. Sentiu o casaco nas pernas e o local onde estava a criança pareceu mais longe.
- Vamos! Abra logo está porta! – ordenou a garota.
Lauro voltou para a carruagem, a porta estava trancada apenas com uma pequena tranca, se Lilah tivesse esticado mais o braço pela janela, teria conseguido sair sozinha. Mesmo assim Lauro soltou a tranca e voltou sua atenção para o garoto. Não dava pra entender como uma mãe ou parente poderia ter esquecido uma criança adormecida tanto tempo ali. Lauro olhou a sua volta tentando encontrar alguma pessoa desavisada, mas as pessoas passavam longe.
O rapaz aproximou-se e curvou-se para acordar o garoto. Chacoalhou levemente a criança pelo ombro, mas a criança não acordou. Foi então que Lauro percebeu que ela estava manchada de sangue na parte da frente da blusa, um leve fio de sangue escorria lentamente de seu nariz.
- Lilah, esse garoto está ferido! – gritou Lauro pedindo ajuda para amiga.
Lilah aguardava parada próximo a carruagem, calada, exibia um maléfico sorriso. O rapaz sentiu um calafrio pelo corpo, e a realidade a sua volta começou a girar, o carpete sob seus pés transformou-se em lama, os corredores a sua volta com suas enormes prateleiras deram lugar a uma floresta. A escuridão preencheu o lugar, iluminada pela luz da lua e por tochas espalhas pela estrada feitas com resto de estopa e gordura de carneiro.
             Lauro agora era Elijah, vestia uma cota de malha coberta por uma pele de antílope, a neve caia suavemente sobre seus ombros e suas pernas doíam como quem tivesse escalado uma montanha.  A sua frente, a garota vestida de princesa também havia mudado, mas de certa forma, continuava a mesma, seus cabelos agora eram escuros e caracolados nas pontas, seus lábios brilhavam, vestia uma longa capa vermelho escuro, e trazia em seu pescoço um medalhão com formato de sol incrustado com uma ametista.
- Obrigado por me libertar Elijah! – agradeceu ela, a tranca havia sido enfeitiçada, se a bruxa a tivesse tocado, teria uma grande queimadura na mão. O que antes era uma carruagem, revelou-se ser uma jaula de madeira em cima de uma carroça.
O jovem desorientado, aos poucos recobrou sua memória, ele mesmo havia ajudado seus companheiros a prender a bruxa na gaiola, Elijah e o nobre guerreiro Nihilen haviam ficado encarregados de vigiá-la naquela noite.
            Elijah correu para perto das rochas e encontrou o amigo (que antes era o garoto adormecido) desacordado, mas ainda vivo.
            O guerreiro empunhou novamente sua espada e preparou-se para a batalha, mas não havia muito a ser feito, a não ser morrer com honra.
            - Fique aonde está Elijah – Advertiu a bruxa. – Não vale a pena morrer agora, e você precisa proteger sua princesa lembra-se?
            Realmente, Milia estava em algum lugar e era o real motivo da sua jornada. Elijah sentiu que precisava estar com ela o mais rápido possivel.
            Ouviu-se o barulho de homens correndo pela floresta, eram os companheiros de Elijah que voltavam em seu auxilio, Lillah sabia que não poderia dar conta de seu devaneio. A bruxa conjurou um encantamento rápido e num instante sei corpo tornou-se pó, reagrupando-se no ar na forma de algo parecido com um corvo. O corvo voou pelo céu deixando para trás a capa vermelha caída pelo chão.
            - Elijah você está bem?  Perguntou um de seus amigos que corria em seu socorro, o resto do grupo foi socorrer Nihilen que apesar de nocauteado já recobrava a consciência.
            - Ela me jogou um feitiço, respondeu o rapaz. – me fez acreditar que eu era outra pessoa, vivendo em outra realidade... Mas eu conto sobre isso depois, precisamos encontrar Mília...
            Novamente reunido, o grupo continuou sua jornada, prontos para as aventuras e perigos que ainda estavam por vir, o sol da manhã surgiu por trás das montanhas refletindo na neve, no alto da montanha um grupo de lobos acompanhavam atentos a passagens dos bravos guerreiros da guarda do rei.

             

Fim.

Historia escrita por Edson F. em maio de 2013.
Contatos: emodem@ig.com.br

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